
Mulher para casar

Penny Jordan


       RESUMO: Claire Marshall: madrasta da noiva. Viva, fria, no perfeito controle das prprias emoes. Desconfiada do amor, no pretende casar-se de novo.
       Brad Stevenson: Agora que os irmos cresceram, est livre da responsabilidade pela famlia. No quer laos nem compromissos sentimentais.
       Persuadido a realizar mais um esforo pelo bem da famlia, Brad irrompe na vida bem organizada de Claire. Ela provoca nele curiosidade, raiva e excitao,
pois Brad Tem certeza de que por detrs da aparncia calma dorme um vulco de paixes. Mas o que acontecer com os dois se esse vulco for despertado?
       PRLOGO
       Uma tradio muito antiga diz que quem pegar o buqu da noiva ir casar-se em seguida.
       A noiva parou no fim do corredor que dava para o salo de festas do hotel, ajeitou a ampla saia e virou a cabea para ver a longa cauda de cetim antes de
sorrir amorosamente para o noivo, que acabara de se tornar seu marido.
       As duas damas-de-honra - sua melhor amiga e uma prima, do noivo - e sua madrasta tinham decidido que no a acompanharia em sua ltima apario ainda em vestido
de noiva: Chris  que estaria com ela naquele momento, haviam dito.
       - Vamos - incentivou ele -, se no o pessoal vai ficar imaginando o que estamos fazendo aqui em cima.
       Rindo, os noivos dirigiram-se ao topo da escadaria que dava para o salo, l embaixo, repleto de convidados.
       A noiva voltou-se para o noivo e murmurou, emocionada:
       - Este  o dia mais feliz da minha vida!
       - Da minha tambm - respondeu Chris, apertando a mo de Sally e inclinando-se para beij-la.
       De braos dados, aproximavam-se do final da escada quando Sally tropeou. O grupinho que os aguardava embaixo ergueu os olhos ao ouvir o grito dela; o padrinho,
o irmo mais velho de Chris e os dois acompanhantes das damas-de-honra apresaram-se a subir para amparar a noiva, enquanto as duas damas-de-honra e a madrasta da
noiva reagiam instintivamente estendendo a mo para segurar o buqu que Sally largara ao tropear.
       Os trs pares de mos femininas seguraram o buqu ao mesmo tempo e a noiva, fingindo recuperar o equilbrio, exclamou com um sorriso malicioso:
       -  Logo vai haver mais trs casamentos!
       -  No!
       - Nunca!
       - Impossvel!
       As firmes negativas partiram das trs mulheres que tinham pegado o buqu.
       As trs entreolharam-se. Era uma superstio boba. Nada significava e nenhuma delas queria se casar, de modo algum.
       A noiva ainda ria ao terminar de descer a escada de brao com o noivo. Armara a pequena farsa porque as damas-de-honra e sua madrasta haviam dito que no
participariam de nenhum ritual idiota tipo pegar o buqu jogado pela noiva...
       Uma suave ruga formou-se na testa de Sally. Quando ser que Claire, sua madrasta, viva, com trinta e cinco anos, entenderia que no era velha demais para
recomear a vida com um novo companheiro?
       Enquanto Sally e Chris cumprimentavam os convidados, um por um, as duas damas-de-honra e Claire observavam. Patrcia, a prima de Chris, olhou para o buqu
que ficara sobre uma das mesas e pegou-o. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
       - Pare com isso, Pat! - exclamou Silvana, a outra dama-de-honra. -  uma superstio estpida, no quer dizer nada! Provo isso agora mesmo, declarando publicamente
que jamais vou me casar.
       Viu uma garrafa de champanhe, pegou-a, abriu-a, serviu o lquido dourado, borbulhante, em trs taas e, em seguida, desafiou as outras duas:
       - Vou fazer a promessa de nunca me casar. E vocs?
       - Eu no tenho inteno alguma de casar de novo - declarou Claire.
       Chorosa Patrcia assentiu:
       - Nunca mais poderei me casar. Nunca, depois que Chris... Agora que Chris...
       As lgrimas desceram-lhe pelo rosto enquanto ela tocava solenemente a taa das outras duas com a sua.
       As trs ergueram as taas sem perceber que algum as ouvia...
       CAPITULO I
       Claire Marshall olhou com tristeza o salo de recepes do hotel, agora vazio, mas ainda com ptalas de rosas brancas e arroz pelo cho.
       Parecia mentira que algumas horas atrs sua enteada e o marido tinham descido aquelas escadas e depois ido embora, rindo acompanhados por muitas gozaes,
vivas e carinho.
       A maioria dos convidados se retirara e uns poucos haviam ficado hospedados no hotel. No momento, Claire dava uma volta pelo salo para ver se algum tinha
esquecido alguma coisa.
       Fora uma festa perfeita, um casamento perfeito com apenas uma tristeza: a ausncia do pai de Sally, seu falecido mando. Ele morrera h dois anos, mas ela
ainda sentia sua falta. Havia sido um marido bom, amoroso, protetor. Enquanto pegava o buqu de noiva que ficara sobre uma mesa, Claire reconhecia que aqueles adjetivos
eram mais adequados para descrever para um pai do que um marido.
       - Voc precisa se casar de novo - insistira Sally, recentemente. Sentira-se triste, ento. Tivera a imensa felicidade de encontrar um homem amoroso e compreensivo;
duvidava que teria sorte bastante para encontrar outro e no pretendia casar-se.
       As damas-de-honra vieram juntar-se a ela e Patrcia, prima do noivo e par do irmo dele, olhou para o buqu e repetiu o comentrio de Silvana:
       - Hoje em dia, ningum acredita nessas supersties bobas...
       Pobre menina pensou Claire, penalizada; Sally lhe contara que Patrcia era apaixonada pelo primo h anos, mas que ele nunca correspondera. No era de admirar
que estivesse to abatida, aquele casamento devia ter sido um tormento para ela.
       Nunca vou me casar! Nunca! - anunciou Patrcia.
       - Nem eu - declarou Silvana, calmamente.
       Silvana era a melhor amiga de sua enteada e Claire lembrava-se que desde adolescente ela dizia que no pretendia se casar, que a carreira profissional seria
a coisa mais importante em sua vida.
       -  uma pena nenhuma de ns dar valor ao gesto de Sally - comentou, triste.
       - Cuidado! - advertiu-a Silvana, secamente. - Sabe-se l onde voc pode chegar pensando assim!
       -   apenas uma tradio - Claire ps o buqu de volta na mesa.
       - Hum... Mas acho que talvez seja bom fazermos algo para garantir que no quebraremos a promessa - props Silvana.
       -  Como o qu? - Pat acrescentou, amarga: - No que ou possa mudar de idia...
       As lgrimas surgiram de novo e ela limpou-as com as costas das mos, enraivecida.
       - Que tal a gente se encontrar a cada trs meses, apenas para nos lembrarmos que no queremos maridos nas nossas vidas? - sugeriu Silvana. - A, se uma de
ns estiver comeando a escorregar, as outras do uma fora e...
       - No preciso de fora nenhuma! - Patrcia ergueu o narizinho. Claire concordou:
       - Eu acho tima idia. Vamos marcar a data do encontro, daqui a trs meses. Podemos almoar juntas... Eu convido.
       - Grande! - apoiou Silvana.
       Claire olhou para Pat. No a conhecia tanto quanto Silvana, que era a melhor amiga de Sally desde o primeiro grau, mas era claro que estava muito infeliz.
Devia ter sido duro para ela ver o homem que amava casando-se com outra. Ao saber que Patrcia gostava de Chris, Sally ficara mal, mas o amava e era amada por ele,
no pudera fazer nada a no ser ter pena.
       -  Deve ser horroroso amar quem no ama a gente... - comentara Sally. - Chris gosta muito dela, claro, mas como prima e...
       - E ama voc - completara Claire.
       Sally a abraara com fora. As duas tinham gostado uma da outra assim que John, pai de Sally, as apresentara. Claire s vezes imaginava que a enteada a aceitara
to bem por nunca ter conhecido a me, que morrera logo depois do nascimento dela.
       - Paula sempre far parte da minha... das nossas vidas. Eu nunca deixarei de am-la - John lhe dissera, muito srio, quando a pedira em casamento.
       Ela aceitara o fato e ver que ele ainda amava a primeira esposa lhe dera segurana.
       Uma vez Sally lhe perguntara, inocente, quando ia ter um irmozinho. Claire dera um jeito de John responder, para no complicar a situao.
       Deu um suspiro profundo. Claro que gostaria de ter tido filhos, se as coisas fossem diferentes.
       - Acho que podemos ir - disse s duas damas-de-honra. - Ningum esqueceu nada...
       - Agora que Sally se casou, o que pretende fazer?
       - Nada, realmente - respondeu Claire para Irene, irm de John. - Vou apenas me dedicar mais  escola.
       Claire trabalhava meio perodo como voluntria, sem ganhar nada, numa escola para crianas deficientes.
       - Voc gostaria de ter um hspede? - indagou Irene.
       - Um hspede? - estranhou Claire.
       - ... Ele  da empresa em que Tim trabalha e gostaria de ficar num lugar onde se sentisse "em casa". Detesta flats,  norte-americano, tem uma famlia enorme
e no quer ficar sozinho.
       Irene deu uma enxurrada de informaes sobre o possvel hspede, at concluir:
       - Est com mais de trinta anos e tem um alto cargo na empresa. Bem, na verdade, a empresa  da famlia dele.
       - Alto cargo, como? - uma campainha de alarme soou na cabea de Claire.
       -  o patro do Tim... - Irene ficou sem jeito.
       - Ah, sei... E o Tim ofereceu-se para arranjar-lhe um bom lugar para ele ficar, no? Por que no o levam para sua casa? - Claire fez um ar inocente. - Vocs
tm dois quartos sobrando, j que Peter est na Universidade e Louise foi trabalhar no Japo.
       - No  uma boa idia. As coisas no vo muito bem entre meu marido e eu, as vendas caram e h problemas com as entregas e instalaes. Vivo dizendo a Tim
que ele precisa ser mais duro, mais exigente.
       Irene suspirou fundo e perguntou, com uma humildade que nada tinha a ver com ela:
       - No quer fazer isso por ns, Claire? Tim est uma pilha de nervos. Parece que esse americano, que vem para consertar a situao,  muito... muito especial.
       - Especial? - desconfiou Claire.
       Sabia, por experincia prpria, que a cunhada passava por cima dos outros como um rolo compressor quando queria alguma coisa,
       - Isso... No  um mau carter - Irene ergueu as sobrancelhas, entende? - Eu no queria incomod-la, mas Tim est to inseguro! Tem certeza que o americano
veio fazer uma limpeza na firma e ficar sossegado se estiver em bons termos com ele...
       - Bons termos? Sendo meu hspede? Se  dono da empresa, ele deve estar acostumado ao luxo. Voc sabe que minha vida  simples, Irene, e que no sou nenhuma
maravilha, socialmente falando.
       -  Talvez no, mas todo mundo gosta de voc! Sua casa vive cheia de amigos, o telefone no pra de tocar...
       Claire no teve o que responder a esse argumento.
       John sempre comentara a tendncia dela em atrair pessoas que precisavam de um ombro para chorar. A nica ocasio em que a enorme casa eduardiana ficara vazia
e quieta foram durante as tristes e breves semanas que haviam precedido a morte dele, isso porque ela pedira aos amigos e conhecidos que no telefonassem. Sentia
muita falta dele, de seu apoio, de sua proteo.
       Pouco  vontade, tentou recusar:
       - Irene, no  uma boa idia. Eu...
       - Oh, Claire, por favor!
       A ansiedade da cunhada era tanta que ela concordou:
       - Est bem. Mas duvido que o patro de Tim goste quando perceber que...
       - Besteira! A sua casa est dentro das especificaes que ele deu - interrompeu Irene. - Fica num bairro chique e tranqilo e tem acomodaes para hspedes.
Ele ficar bem no quarto que era de Sally e poder usar um dos outros quartos como escritrio. Voc tem cinco! O jardim  enorme e h para o carro dele. O americano
ficar com uma grande famlia.
       - Que grande famlia? H apenas eu e...
       - Negativo! H tambm Sally, Chris, a famlia toda dele e ns. Voc tem amigos suficientes para encher duas vezes a nave da nossa igreja e poder lev-lo
ao seu clube.
       - Eu vou lev-lo onde?! Olha aqui, Irene...
       Mas a cunhada no a escutava. Levantou-se, abraou-a e disse num tom que se podia classificar de triunfante:
       - Eu sabia que voc ia concordar!  a soluo perfeita e Tim vai ficar to contente! Ele estava morto de medo que voc negasse, coitadinho, porque...
       - Por que o qu? - desconfiou Claire.
       - Bem, nada.  que o homem chega amanh e, claro, ele deve estar pensando que Tim j arranjou as acomodaes. Vamos coloc-lo num hotel no primeiro dia.
       - Ele chega amanh? - afligiu-se Claire. - Irene, h quanto tempo voc sabia que...
       -  Preciso ir correndo! - cortou a cunhada. - Prometi a Mary que ajudaria a preparar o ch beneficente e estou atrasada. Tim e eu iremos pegar Brad no aeroporto
e daremos um jantar para ele, amanh. Claro, voc tambm vai. Ser uma boa chance para que se conheam e combinem para ele vir ver a casa.
       - Irene...
       Ela viu-se falando sozinha: a cunhada fizera uma retirada mais do que estratgica.
       - Que diabo voc est fazendo?
       Claire ergueu o rosto afogueado. Estava ajoelhada esfregando o piso do banheiro da sute principal e levantou-se. No ouvira a vizinha entrar.
       - Estou preparando a sute para meu hspede.
       Diante do espanto de Hannah, contou-lhe o que tinha acontecido.
       - Desta vez a Irene exagerou! - ironizou a amiga. - Um hspede solteiro, imagino. Caso contrrio, ele alugaria uma casa. Hum... Agito  vista! Como  ele?
       - No sei e no me interessa!
       Empurrando os cabelos para trs, Claire examinou os ladrilhos mais do que limpos. Fartos, longos e sedosos, os cabelos castanhos-dourados emolduravam o rosto
de ossatura delicada, em forma de corao, que a tornava dez anos mais nova.
       -  Voc poderia ser uma das minhas damas-de-honra - brincara Sally. - Parece mais jovem do que a Silvana!
       Rindo, ela lembrara a enteada que era uma senhora madura, de trinta e quatro anos.
       -  Senhora madura? - escarnecera Sally. - Voc parece uma garota.  engraado - acrescentara, sria -, esteve casada por mais de dez anos com papai e ainda
h em voc algo... algo virginal. Sei que parece tolice, mas no fui s eu que notei, Chris tambm.
       - Voc no existe, sabia? - exclamou Hannah, despertando-a da lembrana. - Mulher, adulta, no auge da feminilidade, sem homem e no quer sequer saber como
 o cara que vem morar com voc aqui?!
       Ao ver a expresso de Claire, Hannah ergueu as mos:
       -  Est bem, est bem... Sei o quanto voc e John eram unidos e que ainda tem saudade dele. S acho que  um desperdcio, mais nada! Uma coisa me intriga:
por que esse patro do Tim no vai para um hotel ou um flat?
       - Ele quer ficar num ambiente familiar - Claire repetiu o que Irene dissera. - A famlia dele  grande. Ficou sozinho com os irmos e irms quando os pais
morreram num acidente. Na poca, estava com dezoito anos e teve que abandonar os estudos para trabalhar na empresa da famlia, a fim de sustentar os irmos.
       -  J vi tudo! Aposto que ficou ocupado demais cuidando da garotada para pensar em casar. Quer saber o que penso? Ele deve ser...
       - Um homem srio e chato! - completou Claire. As duas caram na risada.
       - Eu no ia dizer isso! - protestou Hannah. - Alis, j que estamos no papo, que negcio  esse de voc e as damas-de-honra de Sally terem feito um pacto
de permanecerem solteiras?
       -  O qu? - Logo Claire entendeu do que se tratava. - No  um pacto,  solidariedade feminina. Fiquei com d da Pat... Ela tem sofrido tanto por Chris! Sally
hesitou em convid-la para dama-de-honra, no porque no quisesse, mas por achar que poderia ser duro. Por fim, falou com ela e as duas concordaram que se Patrcia
no fosse dama-de-honra ficaria numa posio muito esquisita.
       Hannah assentiu e Claire continuou:
       - Quanto  Silvana, a me dela divorciou-se vrias vezes e teve um caso com um rapaz mais jovem do que a Silvana; o pai tem nove filhos, de vrios casamentos,
e jamais teve tempo para nenhum deles. No  de admirar que ela no queira se casar.
       - E  verdade que vocs combinaram ajudar umas s outras contra os poderes do buqu de noiva que pegaram?
       Claire fitou o rosto brincalho de Hannah:
       - Quem lhe contou isso?
       - Ah! Ento,  verdade. No posso revelar minha fonte de informaes, algum ouviu vocs. No sei se  fato, mas parece que anda correndo uma aposta que at
Sally e Chris completarem um ano de casados vocs trs estaro pelo menos noivas.
       -  mesmo? - Claire ficou sria. - Nunca me casarei de novo, Hannah. John foi um marido maravilhoso e eu o amei muito.
       - Voc est viva h dois anos - lembrou Hannah, suave. - Um dia vai aparecer um homem que far seu corao bater mais depressa e lembr-la que  mulher.
Quem sabe at pode ser esse americano...
       - Nunca.
       Claire estava determinada. Tinha seus motivos para no querer um segundo casamento ou qualquer outro tipo de relacionamento ntimo, mas no era coisa que
quisesse comentar com Hannah, nem com outra pessoa. Tratava-se de algo que partilhara apenas com John e isso tambm a fazia sentir desesperadamente a falta dele.
       John a conhecera como ningum mais, muito menos um homem, poderia conhec-la.
       Quando pegou o avio para Heathrow, Brad Stevenson estava preocupado. No queria assumir esse cargo na Inglaterra. Na verdade fizera o diabo para livrar-se,
mas o presidente da empresa e o diretor, seus tios que estava se aposentando, tinham insistido at faz-lo aceitar.
       Quando enfrentara os tios na mesa de conferncias, dissera que se sentia muito feliz no cargo que ocupava e que no queria atravessar o Atlntico para resolver
os problemas da filial que a fbrica de aparelhos de ar-condicionado tinha na Inglaterra. Lembrou-os que tentara faz-los desistir de abrir aquela filial.
       Na poca, advertira os tios:
       - O vero ingls deste ano est sendo excepcionalmente quente e todo mundo quer ar-condicionado. No ano que vem o vero poder ser mais fraco e vamos ficar
com um depsito repleto de aparelhos que tero de esperar uma outra onda de calor para serem vendidos.
       Mas os tios haviam teimado e ele tivera que usar todo seu poder de persuaso para convencer empresas britnicas a equipar suas instalaes com aparelhos de
ar-condicionado; graas a isso evitara o desastre financeiro do programa de fabricao dos aparelhos na Inglaterra. S Deus sabia o quanto tivera que se esforar
para conseguir aquelas vendas!
       Agora, aqueles dois cabeas-duras achavam que ele vendera com facilidade, por isso devia chefiar a filial em Heathrow.
       Estava com trinta e oito anos, havia coisas que queria fazer e nelas no se inclua dirigir uma empresa do outro lado do Atlntico.
       Por exemplo, havia aquele barco na represa que estava terminando de construir; aquela viagem que prometera a si mesmo quando cursava o Segundo Ciclo e traara
laboriosamente a viagem de Cristvo Colombo s ndias, as sonhadas viagens s ricas terras da Amrica do Sul...
       Sim, queria fazer vrias coisas, viver sua vida, agora que estava livre da responsabilidade de criar os irmos e irms, todos crescidos e encaminhados.
       -  Chegou a sua vez - dissera Sheri, a irm do meio. - Agora que no tem mais nenhum de ns bagunando a casa, voc tem que encontrar uma mulher, casar com
ela e ter uma poro de fi...
       - Nunca - interrompera ele, decidido. - J tive crianas mais do que suficiente criando vocs cinco.
       Sheri o fitara, sria:
       - Foi assim to ruim? - E ela mesma respondeu: - ... Acho que s vezes foi. No para ns, mas para voc. Teve um trabalho com a gente, mas agentou firme,
nos suportou, nos deu amor. No quer filhos seus, mesmo, Brad? Todos ns casamos e temos filhos, a no ser Doug, que acabou de se casar.
       Mas aposto que ele e Lucille no vo esperar muito. Voc fez tanto por ns! Detesto pensar que...
       - Ento, no pense - Brad a fizera calar-se.
       Sheri conhecia bem o irmo para saber, com apenas um olhar, que apesar do amor que Brad tinha por eles era melhor no insistir.
       No gostava sequer de pensar no que teria acontecido se Brad no estivesse com eles quando seus pais tinham falecido, Havia seis anos de diferena entre Brad
e Amy, a primeira irm, que na poca estava com doze anos, e no mais do que um ano ou um ano e meio entre Amy e as outras trs meninas, em ordem decrescente, at
Doug, que era o irmo mais novo, que ento tinha cinco anos. O acidente acontecera h vinte anos.
       Brad fizera o possvel para no ir  Inglaterra: esforara-se para se tornar indispensvel aos tios na Amrica, lanara mo de todas as desculpas possveis,
inclusive que no poderia viver na Inglaterra, onde no teria o aconchego da famlia. Bem, ele pensava que no teria... pois, no imaginara que o representante deles
em Heathrow tinha uma irm viva, uma velhota que pelo jeito estava disposta a oferecer-lhe um lar bem "famlia", como ele queria.
       Sentou-se em sua poltrona no avio de cara amarrada, mas assim mesmo a comissria de bordo lhe deu um cativante e aprovador sorriso. Ao contrrio dos demais
passageiros de primeira classe, ele vestia jeans bastante usado, confortvel, e uma imaculada camiseta branca de gola role, que delineava os msculos firmes dos
braos morenos pelo sol e ocultava o que ela tinha certeza de que era um peito to moreno e musculoso quanto os braos.
       Em linhas gerais, o homem grandalho, de cabelos negros, altamente msculo, no fazia seu gnero: ela preferia o tipo mais suave, mais... malevel. No entanto,
pensando bem, at que faria uma exceo naquele caso.
       Os olhos acinzentados tinham o brilho e a frieza do gelo, mas os lbios bem feitos, extremamente sensuais, garantiam que o gelo podia derreter e deixar que
uma paixo arrasadora se desencadeasse naquele homem.
       - Senhorita. Ei, senhorita! A nossa  a poltrona F, ser que poderia...
       Relutante, ela voltou a ateno para o casal de meia-idade que se aproximava. Era mesmo azarada!, pensou com desnimo. Aquele vo estava completo e com certeza
estaria ocupada demais para pensar sequer em flertar com aquele passageiro solitrio e to sexy.
       Brad percebeu o interesse da aeromoa, porm preferiu ignor-lo. No momento no estava no mercado de namoro, nem de nenhuma outra coisa. O que mais queria
no mundo era acertar os negcios da empresa na Inglaterra, colocar algum competente para dirigir a filial, voltar para os Estados Unidos e declarar aos tios, com
bem-educada determinao, que no estava a fim de fazer o que eles queriam, mas sim o que ele queria.
       Queria, mesmo, dar o fora. No o interessavam, como futuro, outros vinte anos preocupando-se com o destino da empresa da famlia e de seus empregados. Queria,
isso sim, liberdade para viver a prpria vida e realizar os prprios sonhos.
       Queria largar a empresa, terminar de construir o barco e, ento, quem sabe? Velejar ao redor do mundo, talvez? Queria fazer tudo que no tivera chance de
fazer quando era jovem e estava ocupado demais criando os irmos e irms. Merecia algo s para si, no?
       Imaginou, por um segundo, como seria a viva. Tomara que no fosse uma daquelas velhacas faladoras e xeretas. Comeara a se arrepender da desculpa de no
querer ficar longe do calor familiar. Depois de um prazo decente na casa da viva, arranjaria um pretexto e iria para um apartamento; ficaria sozinho e em paz. Nunca
imaginara que Tim Burbridge iria encontrar, e to rpido, algum com as caractersticas que exigira.
       Preocupado em livrar-se da situao saia-justa em que se metera sem magoar os sentimentos da pobre velhota viva, passou a imaginar mil modos de falar com
ela sem ofend-la e nem percebeu que o avio levantara vo.
       Em algum ponto sobre o Atlntico, Brad adormeceu. A comissria de bordo parou no corredor entre as poltronas, observou-o, imaginou se haveria uma mulher na
vida dele e como ela se sentiria ao acordar ao lado desse homem, todas as manhs. Depois, com um suspiro sentido, continuou seu caminho para a cabina de pilotagem.
       CAPITULO II
       O dia estava sendo pssimo para Claire. Comeara mal no momento em que acordara. Assim que abrira os olhos lembrara que nessa noite iria conhecer seu provvel
hspede. Irene quase a deixara maluca de tanto repetir como era importante que o patro de Tim se sentisse bem acolhido e em casa.
       - Vou fazer o melhor que puder - prometera Claire, dcil. Mas achara que j era exagero quando a cunhada informara que conseguira com uma amiga um livro com
receitas de culinria norte-americana:
       - H uma receita de carne assada que os americanos adoram, de uma torta de abbora que...
       Agradecendo apressadamente, Claire encerrara a conversa telefnica. A essa altura j estava arrependida por ter se deixado levar pelos artifcios de Irene
e concordado em receber o hspede, mas no tivera coragem para desistir.
       Gostava de Tim, que era gentil, tecnicamente brilhante na sua profisso, porm lento na comunicao verbal e pouco agressivo na aproximao com as pessoas.
Gostava de Irene, tambm, mas...
       A mo pequenina puxando-a pela manga a fez voltar ao mundo real. Sorriu e, amorosa, paciente, ouviu o que Paul queria lhe dizer. Com cinco anos, ele era a
criana mais velha que ela ajudava a cuidar na escola; extremamente esperto e inteligente, Paul fora vtima de paralisia cerebral; sua inteligncia era normal, porm
tinha problemas psicomotores e os msculos das perninhas eram rgidos.
       Cada criana era especial a seu modo, porm Claire tinha preferncia por Paul.
       O dia de primavera estava lindo, quente, ensolarado e sabendo o quanto as crianas gostavam de passear ela as levara at a praa perto da escola.
       Tudo havia corrido bem at que Janey, uma garotinha com sndrome de Down, vira o carrinho de sorvetes parado junto a uma das entradas do parque.
       As duas crianas quiseram sorvete,  claro, principalmente Janey, que tocava o corao de Claire com seu adorvel sorriso e abraos.
       Crianas e adultos se achavam ao redor do carrinho, esperando ser atendidos, e Claire no imaginou o que poderia acontecer ao juntar-se ao grupo. Mais farde
dissera a si mesma, amarga, que deveria ter imaginado. Afinal, sabia que muita gente era capaz de tratar cruelmente as pessoas "diferentes".
       Foi uma jovem senhora que comeou tudo, ao puxar rapidamente sua filha quando Janey, linda com seus cabelos e olhos negros, estendeu a mozinha para tocar
os cachos loiros da menininha.
       -  Sai da! No se atreva a pr a mo na minha filha! Os gritos da mulher haviam assustado sua filha, loirinha, que desatara a chorar. Janey tambm chorara,
mas fora a expresso de tristeza resignada nos olhos de Paul que mais magoou Claire. Fora a certeza de no poder proteger as crianas da triste verdade.
       Enquanto outras mes tinham ido embora com os filhos, a mulher a encarara, gritando:
       - No tem vergonha? Crianas como essas no devem se misturar com crianas normais!
       Ela sentira vontade de chorar, triste e revoltada, porm jamais o faria diante dos pequenos; se o fizesse, eles ficariam mais aflito.
       Mais tarde, ao levar as crianas para suas casas, com Janey "ajudando" a empurrar a cadeira de rodas de Paul, hesitou quando o garotinho lhe pediu que parassem
um pouco para olhar uns meninos que jogavam futebol. Janey estava cansada e ainda faltava meia hora para a me de Paul voltar do trabalho; s ento levaria os pequenos
cada qual para sua casa. Ento, assentiu e encaminhou-se para um banco.
       Um homem encontrava-se sentado nele, olhando os meninos que jogavam. Pai de algum dos pequenos? Imaginou Claire.
       Uma sensao esquisita, desconhecida e por isso mesmo desconcertante, invadiu-a quando olhou para ele. Pelo menos at agora, era um tipo que nunca a impressionara:
moreno do sol, os msculos revelados por imaculada camiseta branca.
       Apressou-se a garantir que no a estava impressionando. No era dessas mulheres suscetveis  sexualidade masculina arrasadora. Bem ao contrrio. A sexualidade
masculina explcita a desgostava e muitas vezes a alarmava, parecendo-lhe uma ameaa.
       At ento jamais ficara olhando, examinando um  desses exemplares...
       Uma onda de calor percorreu-lhe o corpo e fez seu rosto ficar vermelho de tanto embarao. Que diabo estava acontecendo? No era de admirar que o homem olhasse
para ela, para as crianas e franzisse a testa, com ar aborrecido... Muito normal que sua testa franzisse mais e ele se levantasse para ir embora.
       Nesse instante Paul soluou e ela esqueceu de tudo ao notar que o menininho chorava. Sentiu-se ferver de raiva ao compreender o motivo da desolao do pequeno.
       Sem pensar, disse a Janey que esperasse ali com Paul, correu atrs do homem e segurou-o por um brao, fazendo-o parar e voltar-se.
       - Como voc tem coragem?! - a ira de Claire explodiu. - Como  capaz de fugir de ns desse modo... de magoar tanto as crianas? Elas so seres humanos como
ns, sabia? No! So melhores do que ns porque nos aceitam e nos amam. Tem alguma ideia do que esses pequenos sofrem quando as pessoas fazem o que voc acaba de
fazer? No tem compaixo? Ser que no entende?
       Para seu prprio horror, Claire percebeu que seus olhos enchiam-se de lgrimas e que a raiva morria to subitamente quanto nascer. O que dera nela? Jamais
havia agido de modo to agressivo com algum. No era de sua natureza... Pelo menos, at ento pensava que no era.
       Chocada com o que fizera e com vergonha da exploso de raiva, voltou-se e saiu quase correndo, mas o homem alcanou-a e segurou-a pelos ombros.
       Mais tarde, pensando no que acontecera, ela ainda ficava vermelha de vergonha e culpa, mas no era capaz de compreender ou explicar a falta de reao quando
ele a segurara, nem a ausncia de medo, pois no sentira nenhum. Choque, sim. Revolta, sim. Medo? No.
       - Me largue! - exigiu, procurando libertar-se.
       Mas ele no atendeu; sacudiu-a e disse, com um lento sotaque americano:
       - Quer parar de gritar comigo, mulher, e me ouvir?
       - Ouvir "voc"? No quero! - A raiva tornou a ferver. - Me largue!
       - No, enquanto no me escutar, sua encrenqueira! Voc fez o que quis, agora  minha vez.
       - Me largue! - insistiu Claire, os olhos fuzilando.
       Ele tinha os mais fascinantes olhos cinzas que ela j vira, ornados por clios negros, longos e curvos. A respirao de Claire parou e quando ele inclinou-se,
os lbios se aproximando, os dela entreabriram-se suavemente... esperando... sabendo.
       Uma frao de segundo antes que a boca dele tocasse a dela, Claire teve impresso de ouvi-lo dizer:
       - Acho que este  o nico modo de calar uma mulher briguenta como voc.
       No entanto, como prestava mais ateno no que ele fazia do que no que dizia, no tinha certeza.
       Fazia muito tempo que no era beijada como mulher, reconhecia. Muito, muito tempo, mesmo. Na verdade, no lembrava de algum homem t-la beijado assim.
       Seu corao disparou  firme, clida presso do beijo que lhe impunha silncio, que comeou uma lenta e deliberada explorao de sua boca. Instintivamente
correspondeu, seus lbios submissos e ansiosos...
       Com um gritinho abafado, ela libertou-se, o rosto ardendo pela indignao e surpresa que se misturavam a um sentimento mais ntimo, preocupante.
       -  Olhe, desculpe. Eu no queria, no pretendia... - ele procurou justificar-se.
       - Voc no tinha o direito de...
       Ele no a deixou continuar, assentindo:
       - No. De fato no tinha e peo desculpa. Passei dos limites e isto nunca me aconteceu. Mas voc veio para cima de mim, furiosa, dizendo tudo aquilo... Eu
no sai do banco por causa das crianas - afirmou, com tranquilidade. - Pelo menos, no pelo que voc pensa. O banco  pequeno, no tem lugar para mim e vocs trs.
Ento, achei que devia deix-lo para vocs.  assim que se faz na minha terra acrescentou, com certa ironia.
       Claire percebeu que corava ainda mais. Nunca se sentira to mortificada e no era apenas por ter sido injusta ao julg-lo mal,
       Voltou-lhe as costas e encaminhou-se para as crianas, que esperavam perto do banco, obedientes. Percebeu que o homem vinha atrs dela. Quando chegaram junto
 cadeira de rodas de Paul, ele agachou-se perto do menino e, sorrindo, comeou a conversar:
       - Passei alguns meses numa cadeira dessas.
       O rostinho magro de Paul iluminou-se e ele tratou de mostrar ao novo amigo as coisas que sua cadeira podia fazer.
       Janey decidiu ter um pouco daquela ateno: soltou da mo de Claire e foi para junto da cadeira de rodas, olhando com insistncia para o amigo de Paul.
       S mais tarde, depois de entregar as crianas na casa delas e de ter tempo para rever o incidente,  que um pensamento terrvel ocorreu a Claire.
       Aquele homem, o americano do parque, no podia ser o patro de Tim e seu futuro hspede, podia? No. Claro que no, tratou de se acalmar. O dono da empresa
onde Tim trabalhava no sentaria num parque para olhar meninos brincando, vestindo camiseta e jeans desbotado. Ele nunca faria uma coisa dessas... Faria?
       Mas se fosse o patro de Tim, seu problema estava resolvido: escaparia do compromisso de hosped-lo, porque provavelmente a cunhada a mataria quando soubesse
o que acontecera. Provavelmente, no. Irene a mataria, com certeza!
       - Voc est to... to formal! Aonde vai?
       Hannah avaliava, curiosa, o costume preto de saia longa e a blusa de seda cinza-prola que dava um ar antigo a Claire.
       - Jantar na casa de Irene para conhecer meu possvel hspede.
       - Socorro! Pobre homem! - Hannah sufocou uma gargalhada. - Ele vai achar que voc  uma matrona vitoriana! Onde arranjou essa roupa?
       - Comprei para o funeral de John - Ao ver a consternao da amiga, acrescentou: - Tudo bem... Eu estava to fora de mim que comprei a primeira roupa preta
que vi.
       - Bem,  adequada para um funeral... Mas por que a vestiu esta noite? Alm de tudo, vai assar dentro dessa roupa quente.
       - Irene quer que eu cause boa impresso ao patro de Tim - explicou Claire.
       - Com "isso"? Vai aterrorizar o pobrezinho! - protestou Hannah. - No pode ir assim. Por que no pe o conjunto de trs peas, que tem aquele colete adorvel?
Fica to bem com ele!
       O conjunto de tric gelo de fato lhe ficava muito bem. Sally estava com ela quando o comprara e insistira na compra, pois Claire o achara muito juvenil.
       - No sei se Irene iria aprovar... - resistiu.
       - Irene, no sei. Mas garanto que o hspede vai - rebateu Hannah. - No vou deixar voc sair de casa vestida com "isso", minha cara. De jeito nenhum!
       Claire suspirou e deu um sorriso triste para a amiga:
       -  Tudo bem, vou pr outra roupa.
       -  O conjunto de tric - determinou Hannah.
       -  Outra roupa - Claire tentou evadir-se.
       -  O conjunto! - exigiu Hannah. - Vou ficar aqui para garantir.
       Era intil discutir, pensou Claire, e no queria chegar tarde: a, sim, Irene ficaria uma fria. Ento cedeu:
       -  Ganhou. O conjunto de tric.
       No havia qualquer motivo lgico para temer que "seu" americano - o americano do parque - fosse o patro de Tim, assegurou Claire para si mesma enquanto estacionava
na entrada dupla da garagem, atrs do Volvo de Tim e do Ford simples, que julgou ser do convidado.
       O americano do parque no lhe parecera um importante empresrio, dono de florescente indstria. Parecera... Parecera...
       Rpida, .tratou de expulsar a imagem detalhada que sua imaginao produziu dos atributos fsicos do americano e concentrou-se em imaginar a provvel aparncia
do patro de Tim. Deveria ser a verso norte-americana do marido de sua cunhada: meia-idade, bem alimentado, ligeiramente calvo, sempre de terno e gravata.
       De acordo com o histrico que Irene fizera dele, dificilmente seria um homem que se vestia de maneira to informal e esbanjava charme, como o "americano dela",
que era simples e muito atraente, decidiu, enquanto passava entre os carros para entrar na casa.
       Era evidente que a cunhada a esperava, pois abriu a porta antes que ela batesse. Fez com que entrasse depressa e disse, baixinho, que Tim e Brad estavam no
jardim:
       -  Brad parece gostar de jardinagem e horticultura... Pelo menos uma coisa vocs tm em comum - comentou.
       Agitada, conduziu Claire at a sala de estar de janelas francesas dando numa varanda que terminava em degraus descendo para o jardim.
       Dois pares de pernas masculinas desciam esses degraus naquele momento, vestidos por calas clssicas de terno. Um dos pares, o mais amplo, foi logo reconhecido
por Claire como o de Tim; o outro, claro, era do patro.
       O tecido azul-marinho com finssimas riscas de giz nada tinha a ver com brim gasto de jeans e ela quase riu alto de sua doidice: como o homem do parque poderia
ser...
       Todo sangue fugiu-lhe do rosto quando passou para a varanda e pde ver os dois homens inteiros. Parou de respirar; a cunhada percebeu e olhou-a com ateno,
mas Claire negou-se a fit-la diretamente: no se atrevia a faz-lo. Em seguida, seu rosto tornou-se de fogo quando notou que "ele" a reconhecia de imediato, como
ela o reconhecera. No entanto, o americano no deu a menor demonstrao disso ao estender-lhe a mo formalmente e indagar:
       - Senhora?...
       - Oh, sem formalidades! - exclamou Irene. - Claire, este  Brad. Tim, voc serve as bebidas enquanto vou dar uma espiada no jantar.
       - Eu... eu vou com voc para ajudar - Claire estava desesperada para fugir.
       Mas Irene no permitiu. Sacudiu a cabea energicamente e ordenou:
       - No. Voc fica conversando com o Brad. - Voltou-se para o convidado: - Amanh vamos lev-lo para conhecer a casa, enquanto isso pode perguntar tudo que
quiser a Claire.
       Claire podia sentir seu corao palpitar enquanto ele lhe dava um longo, atento olhar. Seu corpo e rosto estavam to quentes que se surpreendia por Irene
no ter notado.
       - Soube que voc  viva - foi o nico comentrio que o americano fez enquanto Tim, obediente, ia cuidar das bebidas.
       - Sim. John, meu marido, morreu h algum tempo.
       - E desde ento voc vive sozinha?
       Aquela pergunta pareceu um tanto esquisita e Claire olhou-o com ateno. O que ele estaria pensando? Ser que imaginava que s porque... s porque ele a apanhara
de surpresa nessa tarde com sua... sua imperdovel atitude de macho arrogante, roubando-lhe um beijo... e s porque num brevssimo momento ela correspondera, involuntria
e inexplicavelmente... Ser que a julgava uma dessas que... Que ela... Que sua viuvez era preenchida com uma srie de relacionamentos com homens?
       A indignao foi tanta que o rosto dela assumiu uma adorvel colorao rosada, mas quando abriu a boca para rebater a injusta condenao teve o choque de
ouvir-se dizendo, com timidez:
       - Bem, no. Para dizer a verdade, at recentemente havia algum...
       A chegada de Tim com as bebidas salvou-a das possveis consequncias, pois ele a interrompeu dizendo, jovial:
       - Claire s ficou sozinha h poucos dias. Sally, filha do meu falecido cunhado, morou com ela at se casar.
       - Sua enteada - simplificou Brad, sorrindo para ela e voltando-se para pegar a bebida que Tim oferecia.
       O sorriso no era clido como os que ele dera para Paul e Janey, no parque, observou Claire. De imediato, perguntou-se por que sentia-se ridiculamente triste
e magoada por no receber um sorriso carinhoso como as crianas tinha recebido.
       Bem, de uma coisa podia estar certa, pensou, fatalista: agora que a reconhecera e sabia quem ela era, Brad Stevenson no iria para sua casa.
       Engraado! Em vez do alvio que esperava, uma sensao incrvel de mgoa tomou conta dela.
       Mgoa, por qu?
       -  Sim, Sally, minha enteada - assentiu, corando mais diante do olhar dele.
       - Claire  o tipo de pessoa ao redor de quem todo mundo gravita - esclareceu Irene, vindo anunciar que o jantar estava servido. - Sua casa est sempre cheia
de gente. Se John no fosse muito mais velho do que ela, tenho certeza quo teriam enchido a casa de filhos...
       - Seu marido era muito mais velho do que voc? - indagou Brad, olhando-a com mais ateno.
       Que diabo havia com aquele homem? Por que toda pergunta que lhe fazia parecia uma acusao, mais ainda, uma denncia? Ouvindo-o, percebia com clareza reprovao
e cinismo na voz dele; chegava a ver-se da maneira que ele a via: a mulher moa, calculista, que enfeitiara com seus encantos o frgil homem mais velho.
       A verdade sobre seu relacionamento com John nada tinha a ver com isso.
       - Sim, ele era mais velho - confirmou Claire, em voz baixa. De sbito, sentiu-se vazia, cansada. Era ela quem deveria estar fazendo perguntas, pensou desanimada.
Como poderia receb-lo em sua casa depois do que ele fizera?
       No entanto, por mais que tentasse livrar-se da sensao de injustia, enquanto se dirigiam  sala de jantar admitia que quando ele a beijara acabara-se sua
normal falta de interesse por intimidades sensuais entre um homem e uma mulher. E o mais desconcertante era que correspondera ao beijo dele!
       Brad podia ter quebrado todas as regras ao beij-la, ela podia ter se surpreendido com a atitude dele, mas sua maior surpresa fora ter correspondido, ter
gostado do beijo.
       Durante anos aceitara pacificamente o fato de no ser uma mulher sensual. Da o tremendo choque ao descobrir-se correspondendo  atrao de um desconhecido
com um desejo intenso, com um erotismo que at ento conhecera apenas em livros e filmes, que sempre considerara pura fico.
       Ainda no tinha certeza de como encarar o prprio comportamento. No sabia o que mais a chocava: ter descoberto que era capaz de uma reao profundamente
sensual; ter se sentido atrada fisicamente por um homem ou ter agido de um modo que demonstrava que talvez no se conhecesse to bem quanto pensava.
       Talvez o fato de ver-se obrigada a pensar profundamente em si mesma e no seu passado, duas coisas que ela sempre evitara com o maior cuidado,  que a fazia
sentir tanto antagonismo por Brad, em vez de se envergonhar ao encontr-lo depois "daquilo".
       Quando j estavam jantando, para maior irritao e embarao de Claire, Irene passou a descrever suas fantsticas habilidades:
       -  Claire  uma cozinheira maravilhosa - disse a Brad quando ele elogiou o jantar. - John, meu irmo, nunca ligou muito para a comida e achava perda de tempo
ela cuidar de uma horta...
       - Sim? - Brad olhou-a, curioso. - As pessoas que se preocupam realmente com sade, hoje em dia, afirmam que os produtos de hortas caseiras so os melhores.
       - Meu marido preferia que eu pagasse algum para fazer isso. - Decidida a fazer Irene parar com os elogios, Claire explicou: - Ele achava que plantar era...
Ele pensou que eu acabaria me confinando a...
       - John era antiquado - Tim sorriu para Claire, afetuoso.
       - Achava que a nica funo de uma mulher em relao  terra  apanhar flores e fazer arranjos com elas.
       - Simplesmente, John no queria que Claire se sobrecarregasse - Irene apressou-se a defender o irmo. - Nossa me sempre teve algum que fazia os trabalhos
mais pesados em casa. John culpava Tim pelo interesse de Claire em jardinagem e hortas... Ele  o nico que sempre a encorajou a plantar, tanto que todo fim de semana
vai ajud-la.
       Tim e Claire trocaram um rpido olhar de conspirao e cumplicidade. Irene suspirou e sacudiu a cabea, resmungando contra o tempo que o marido perdia cuidando
de seu precioso jardim e da enorme horta.
       Ento, Tim contou a Claire, todo entusiasmado:
       - Estou para fazer uma nova experincia com meus aspargos, por isso preparei novos canteiros. Estive pensando que talvez a gente possa plantar umas vinhas
junto daquele seu muro, no fundo do quintal, e depois...
       - Quer dizer que voc prefere os servios caseiros, Claire?
       - indagou Brad, interrompendo Tim. Sua voz soou um tanto spera, enquanto a fitava quase com desafio, - Nunca pensou em seguir uma carreira?
       A pergunta soou zombeteira, pelo menos para Claire.
       -  Ser madrasta de Sally e esposa de John foi a minha carreira - responde, agressiva.
       - Pelo visto, uma carreira que ainda no terminou... - Brad estava macio como seda. - Nunca se sentiu tentada, como tantas mulheres modernas, a aceitar o
desafio de abrir caminho na arena comercial? Hoje em dia no existe isso de um s trabalho pela vida inteira. Devemos ser flexveis, adaptveis e aceitar trocas
na carreira profissional, pelo nosso bem.
       Claire notou que os comentrios de Brad faziam Tim ficar muito nervoso. Ser que o patro dirigia-se a ela ou a usava como meio de prevenir Tim sobre possveis
mudanas?
       Fosse o que fosse, determinou-se a deixar tudo bem claro para Brad;
       -  Eu sou professora - disse, com frieza. - Pelo menos era quando conheci John e...
       - John quis que Claire ficasse em casa com Sally, depois de se casarem - interveio Irene. - Agora ela trabalha meio perodo como voluntria numa escola especial
para crianas deficientes.
       - Sei... Deve ser um trabalho emocionalmente pesado - comentou Brad. - Se me perguntassem, eu diria que voc prefere a tranquilidade de lidar com a terra.
       - A seu modo, as plantas podem ser to complicadas e teimosas quanto crianas.
       Ao notar a expresso com que ele olhava para Tim e em seguida para ela, Claire acrescentou, com uma agressividade que no era dela:
       - Para ser franca, no tenho dificuldade em lidar com crianas deficientes, mas sim com os adultos que agem de maneira lamentvel com elas.
       - Por mais bem-intencionadas que sejam, as leis contra a discriminao no conseguem acabar com os preconceitos das pessoas, com o que elas sentem em seu
ntimo - observou Brad, calmo.
       - De fato, no conseguem - concordou Claire.
       - No sei se lhe serve de consolo, mas uma escola de pensamento afirma que podemos escolher o que queremos ou no queremos ser antes de reencarnarmos na Terra
e que as crianas deficientes tm dons especiais de coragem e de compreenso.
       Claire ficou surpresa: no esperava nenhum conforto emocional por parte de Brad depois do que acontecera no parque. E, como se lesse seu pensamento, ele voltou
a falar, com tranquila franqueza:
       -  Passei maus momentos quando meus pais morreram. Fiquei com muita raiva, muito ressentimento e muita amargura. Nunca fomos o que se pode classificar de
famlia religiosa, mas o pastor do nosso bairro fez tudo para ajudar. Disse-me que muitas pessoas se consolam considerando tragdias como aquela uma indicao de
que so mais fortes do que outras, que de algum jeito tm foras para ultrapassar o que lhes acontece de ruim. Pode ter dito isso para me ajudar a reagir...
       Em vez de ficar em silncio e tentar livrar-se das sensaes perturbadoras que Brad despertava nela, Claire desobedeceu ao instinto que a aconselhava a fechar-se
e comentou:
       - Acredito que o motivo de voc querer ficar numa casa de famlia  ter menos saudade do lar que deixou na Amrica.
       - , sim - concordou Brad. - Sou o mais velho de seis filhos, Todos eles j esto encaminhados na vida, casaram-se e tm filhos. Menos o mais novo, que se
casou h pouco tempo. Mas logo ele tambm vai t-los. A nossa cidade  pequena pelos padres americanos e  raro algum passar pela rua principal sem encontrar uma
tia, um primo ou algum parente.
       Ele fez uma pausa, sorriu melanclico e continuou:
       - Meu pai e seus dois irmos abriram uma fbrica de aparelhos de ar-condicionado, no incio dos anos cinquenta. At recentemente meus tios ainda trabalhavam
na empresa. Um deles aposentou-se por motivos de sade e o outro quer se aposentar.
       Calou-se, seus olhos tornaram-se sombrios, demonstrando irritao e tristeza. Claire gostaria de saber por que ele ficara assim, mas no se atreveu a perguntar.
       Passava das dez da noite e Claire levantou-se para ir embora. Brad aproximou-se para se despedir e ela levou um susto quando, em vez de estender-lhe a mo,
teve o impulso de oferecer-lhe o rosto. Felizmente conteve-se a tempo. Confusa, compreendeu que o impulso no havia sido para aqueles beijinhos sociais nas faces,
mas sim desejara que ele a beijasse na boca, despertando seu desejo, como tinha feito naquela tarde.
       Vermelha, recuou e quase tropeou em Irene, que a observava intrigada.
       - Levaremos Brad para conhecer a casa, amanh de manh - lembrou a cunhada, com seu jeito mando. - Est bem s onze horas?
       - Onze? Est... - respondeu Claire, atrapalhada.
       No conseguia entender por que Brad no dizia que mudara de ideia, que no iria para a casa dela. Tinham conversado educadamente, mas ficara evidente que
no haviam sido feitos para viver sob o mesmo teto.
       Ela o achava muito perturbador... muito msculo. Todos os seus nervos estavam tensos, apesar de aparentar calma. Ficar sentada  uma mesa diante dele a deixara
exausta mental e emocionalmente; no compreendia por que ele a agitava tanto.
       Seja honesta! Zangara-se consigo mesma ao dirigir de volta para casa. Voc no queria receber o patro de Tim em sua casa; Irene a pegou num momento de fraqueza,
mas agora que o conheceu...
       Agora que o havia conhecido, o que tinha?
       Num sobressalto, percebeu que o sinaleiro abrira e que o motorista atrs dela buzinava, impaciente.
       No era adequado a uma viva ter sensaes emocionais e fsicas prprias do despertar sexual de uma adolescente. No seu caso, esse despertar sexual tinha
sido adiado e ela achara que jamais aconteceria. Tinha sido adiadol Isto queria dizer que?...
       Rpida, censurou o que pensava.
       De sbito, ficou ressentida pelo modo que Brad se intrometera em sua tranquila e organizada vida, trazendo  tona emoes e reaes que enterrara bem fundo
h muitos anos.
       Foi uma bno entrar em casa, sentir seu aconchego. John a comprara por ocasio do primeiro casamento e, explicara a Claire, como sempre fora o lar de Sally
no achava justo vend-la e ir morar em outro lugar. Mesmo porque era uma casa grande, bonita, confortvel e ficava num dos bairros mais elegantes da cidade.
       Claire concordara com ele: gostara da casa assim que entrara nela; parecera-lhe clida, protetora, como se a acolhesse com um enorme e eduardiano abrao.
       Sabia,  claro, que havia outras razes para John no querer mudar. Ele amara muito a primeira esposa e a casa era uma parte dela; suas fotografias permaneciam
na sala de estar e um quadro a leo, em tamanho natural, achava-se no primeiro patamar da ampla escadaria de mrmore, mostrando quanto Sally se parecia com a me.
       Alguns dos quartos continuavam mobiliados por peas antigas que Paula herdara da famlia. Os mveis haviam recebido cuidados constantes de Claire e quando
Sally ficara noiva ela os oferecera  enteada.
       - No, obrigada - Sally franzira o narizinho bem-feito. - Fico doente s de pensar o trabalho que esses mveis do!
       -  Mas so seus - insistira Claire. - Seu pai os deixou para voc. Eram da sua me e...
       - A herana mais valiosa que papai me deixou foi voc - emocionara-se Sally. As duas se haviam abraado, chorando. - At voc vir morar aqui com a gente,
minha vida foi triste, escura. Quando voc veio, trouxe o sol. Sempre que ouo algum dizer que as madrastas so malvadas, digo que no  verdade, que existem madrastas
to maravilhosas quanto mes.
       Sally a afastara de si, mas continuara a segurar-lhe as mos e avisara, muito sria:
       - Jamais se atreva sequer a pensar em sair da minha vida! Quando eu tiver filhos, quero que voc seja para eles como  para mim. Vai ser a av deles. Eu e
meus filhos vamos precisar muito do seu amor. Quero quvoc e papai tenham seus filhos; ele acha que isso seria injusto para mim, mas est errado. Vou adorar ter
um irmo, uma irm ou os dois, sabe?
       -  As vezes isso no  possvel... - respondera Claire, mansamente.
       Amava a enteada como se fosse sua filha, desde o momento em que John as apresentara. A meninazinha parara diante dela muito sria, solene, madura demais para
a idade, no uniforme grande e as grossas tranas que John copiara das fotos de Paula quando tinha a mesma idade.
       Claire encarregara-se de explicar carinhosamente ao marido que Sally era uma criana triste por sentir-se diferente das outras meninas, com roupas enormes
e cabelo fora de moda que com certeza a tornavam motivo de caoada.
       Os primeiros anos de casamento tinham sido felizes e produtivos. Anos durante os quais aprendera a deixar o passado para trs: coisa que tinha certeza de
haver feito acertadamente.
       Ento, por que o passado forcejava para ultrapassar as barreiras que erguera para se proteger? E, mais importante, por que Brad despertara as emoes que
at ento controlara to bem?
       CAPITULO III
       Hannah a procurara com a desculpa de mostrar a foto do hotel em que tinha se hospedado durante frias na Turquia, sentara-se  mesa da cozinha e, afinal,
no conseguira mais conter a curiosidade:
       - Vamos, me conte! Como ele ?
       - Logo voc vai ver, Hannah. - Claire fingia-se calma. - Irene vai traz-lo, ali pelas onze, para conhecer a casa.
       - Oh, ento, acho melhor eu ir embora! - mas Hannah no fez um movimento sequer para levantar-se.
       Numa tentativa de acalmar os nervos, Claire experimentava uma nova receita de biscoitos. Pretendia lev-los para as crianas da escola e a inteno era mais
permanecer ocupada do que desenvolver habilidades culinrias.
       A escola, que era uma fundao mantida em funcionamento por trabalho e patrocnios voluntrios, atendia crianas carentes e deficientes.
       Na maioria dos casos tratava-se de pequenos cujas mes trabalhavam fora e Claire gostava no apenas de dar-lhes aulas, como tambm de inici-los em tarefas
domsticas de acordo com suas idades. A receita de biscoito que testava naquela manh era simples o bastante para crianas.
       - Humm! Que delcia! - aprovou Hannah, pegando um biscoito assim que Claire tirou a assadeira do forno.
       - Pensei que voc estivesse fazendo regime - brincou Claire.
       - Vou comear amanh - resmungou a vizinha. Enfiou outro biscoito quente na boca e virou a cabea ao ouvir um carro entrar no ptio dos fundos.
       - Oh, Hannah! Voc j estava indo embora? - indagou Irene, com sutileza elefantina, quando Claire abriu a porta da cozinha.
       As duas eram velhas inimigas, provavelmente porque Irene sabia que jamais conseguiria conduzir Hannah como conduzia a cunhada. E Claire era obrigada a admitir
que fora justamente por isso que encorajara a amiga a ficar. No ligava muito para o fato de ser uma mulher "malevel", mas de vez em quando reagia.
       -  Voc deve ser Brad - comentou Hannah, sem dar a mnima importncia  insinuao de Irene, e apertou a mo dele. - Sou vizinha de Claire e serei sua vizinha
tambm, segundo me contaram. Voc vai adorar morar aqui. Claire  uma grande cozinheira!
       - Pelo cheiro bom que estou sentindo, acho que  mesmo - concordou Brad.
       Ele estava simplesmente vestido, mas no com o jeans e a camiseta da tarde anterior. Desta vez usava cala esporte de linho cinza-grafite, camisa esporte
de cambraia branca, com mangas compridas, e colete cinza. Outro homem teria parecido esquisito com aquela roupa, mas Brad a usava com naturalidade e elegncia.
       Ele passava a impresso de algum que se preocupa com a aparncia, mas que no se importaria se pequeninas mos tocassem suas roupas, amarrotando-as; isso
o tornava ainda mais atraente, reconheceu Claire. Cuidado! Avisou a si mesma ao notar que Brad tinha percebido seu interesse.
       - Eu... hum... Por onde quer comear? Pelo quarto? Assim que fez a sugesto ela ficou vermelha e detestou-se pela ridcula reao.
       No se compreendia mais! Agia como uma... uma... No sabia como "uma o qu", mas sabia que no gostava do jeito que Irene erguia as sobrancelhas e decidia:
       - Brad quer ver a casa inteira,  claro. Meu irmo a construiu por ocasio de seu primeiro casamento - informou a Brad, enquanto Claire dirigia-se para a
porta. - Paula a decorou: tinha muito bom gosto! Foi ideia dela que os quatro quartos tivessem cada qual seu banheiro, no , Claire?
       Sem esperar resposta, Irene continuou falando. A essa altura estava no hall. Todos estavam no hall, notou Claire, exasperada, enquanto abria a porta dupla
que dava para a sala de estar, a fim de que ele apreciasse o ambiente que a cunhada descrevia detalhadamente.
       Claire lembrava-se que na primeira vez que entrara naquelu sala ficara intimidada pela beleza e, ao mesmo tempo, sentira-se protegida e em paz.
       Sem perceber o que fazia, ergueu as sobrancelhas ao ver que a grande fotografia, em moldura de prata, do casamento de John e Paula havia sido colocada bem
para trs, na mesinha de canto modelo Regncia, e que a do casamento dela, bem mais simples, fora deslocada para a frente.
       Aquilo era arte de Sally, com certeza, pensou e trocou as fotos de lugar. Ela sempre implicara com a mania do pai em dar destaque s fotos da primeira esposa.
       -  a primeira mulher do seu marido? - perguntou Brad, pegando a foto.
       - . Sally, minha enteada,  muito parecida com a me... acho que  at mais bonita, apesar de John dizer que no. Ele no admitia que ningum superasse Paula...
       No reparou no olhar intrigado que Brad lhe deu ao notar a convico e calor com que falava.
       Ser que Claire no se importava com o fato de o marido ter amado mais a primeira mulher? Perguntava-se, E se no se importava, por que no? Era uma mulher
extraordinria ou...
       Observou a agradvel e elegante sala, ento sua ateno foi chamada por algo que lhe pareceu inadequado: uma tapearia evidentemente feita por amador, emoldurada
e pendurada numa das paredes.
       Aproximou-se para ver melhor.
       - Paula adorava tapearia - explicou Claire, tranquila. - Fez vrias almofadas, tambm, enquanto esperava Sally teve uma gravidez complicada e precisou ficar
em absoluto repouso. - O rosto bonito escureceu de tristeza. - Infelizmente, trs dias depois do parto ela faleceu... Foi trgico.
       To trgico, pensou Brad, que o marido jamais se refizera, mesmo depois de tornar a casar-se. No entanto, pelo que Irene e Tim haviam dito e pelo que ele
mesmo observara, John se casara com uma mulher que levaria facilmente um homem a se apaixonar.
       Brad franziu as sobrancelhas: no gostava do rumo que seus pensamentos haviam tomado desde aquele momento no parque quando, s Deus sabia por qu, abraara
e beijara aquela mulher. Ele a beijara e sentira nos lbios macios dela a fremente reposta que nunca mais encontrara na boca de mulher alguma desde que deixara a
adolescncia para trs.
       - Ficamos to contentes quando John se casou com Claire! - dizia Irene. - Tnhamos muito medo que ele fizesse de Sally uma cpia carbono de Paula.
       - John tentava apenas fazer o melhor pela filha - protestou Claire. - Ele amava Paula, achava-a perfeita...
       Calou-se ao perceber o que Brad a olhava com um misto de pena e curiosidade. Ergueu o queixo e encarou-o com os olhos brilhando de orgulho e rejeio  piedade
que no pedira.
       Amava Sally profundamente e tivera motivo para apegar-se  ela: ficara rf quando comeava a andar e fora criada por uma tia-av solteirona, irm de seu
pai, professora aposentada, que tinha ideias rgidas de como educar crianas, principalmente uma menina. Sob essa tutela, Claire desenvolvera sua brilhante inteligncia,
mas socialmente era de uma timidez impressionante e jamais se entendera com garotas da sua idade. A tia-av morrera de repente, de um ataque cardaco, quando Claire
acabara de formar-se professora e comeava a dar aulas. Passados alguns meses, ela conhecera John, logo depois do...
       Brad a observava, tentando imaginar por que o olhar de Claire se tornara to distante.
       Apesar da evidente tenso que havia entre eles, Brad no lamentava o que acontecera no primeiro encontro. Mas a mulher vibrante e intensa que conhecera no
parque nada tinha a ver com a mulher submissa, que aceitara um segundo lugar na vida do marido.
       Sem dvida, Claire era carinhosa, sensual, e ele no conseguia imaginar como ela pudera ser feliz com um homem que, pelo que ouvira at agora, no satisfizera
suas necessidades emocionais e, com certeza, nem as fsicas.
       Apesar de censurar-se pelos pensamentos atrevidos, Brad tinha que admitir: Claire era profundamente amorosa e feminina, tanto por sua atitude com as duas
crianas deficientes, quanto pela ligao amiga e cmplice com Tim, que se evidenciara nos olhares de entendimento entre os dois a cada comentrio cido e mal-humorado
de Irene.
       No era de admirar que Tim preferisse passar a maior parte de seu tempo livre ajudando a concunhada a plantar...
       Seu rosto escureceu quando imaginou se o relacionamento entre Claire e Tim era to inocente quanto aparentava.
       Nada havia no modo de Irene tratar o marido e a cunhada que levasse a pensar que ela desconfiava de alguma coisa, mas era bem clara sua insistncia em querer
convenc-lo que a casa de Claire era o lugar ideal para ele ficar. Por qu? Porque achava que um terceiro personagem evitaria qualquer intimidade entre o marido
dela e sua cunhada?
       Quando beijara Claire, ele percebera que ela ficara chocada por corresponder ao beijo; dali por diante passara a rejeit-lo. Um relacionamento entre Claire
e Tim poderia explicar essas atitudes.
       Recusou-se a admitir a estranha sensao de perda e frustrao que o dominava ao pensar que Claire poderia estar envolvida num caso amoroso.
       Por qu? Ser que se perturbava por descobrir que estava errada a sua primeira impresso de que ela era uma mulher franca, impulsiva e amorosa? Ou seria algo
mais do que a desiluso de ter se enganado a, respeito dela?
       No que Brad estaria pensando? Perguntou-se Claire, ao notar as grossas sobrancelhas fortemente franzidas. Ser que ele no gostara da casa ou era dela que
no gostava?
       - Se quiser me acompanhar... - ela tentou parecer calma e profissional.
       Enquanto a seguia escadaria acima, Brad definiu o que o confundia tanto: era o enorme contraste entre a vibrante, emotiva, mulher que o atacara como uma fera
para proteger os sentimentos de duas crianas e a mulher fria, hostil que via agora.
       Claire parou diante da porta de um dos quartos e esperou que ele a alcanasse. Hannah e Irene vinham logo atrs e a cunhada ergueu as sobrancelhas ao ver
a porta que ela abrira:
       - Mas esse  o seu quarto... seu e de John! - protestou. - Pensei que fosse dar o quarto de Sally para o Brad.
       - Este  maior e mais cmodo - explicou Claire.
       - E onde voc vai dormir? - insistiu Irene.
       - Escute, a ltima coisa que eu quero  tir-la do seu quarto e... - comeou Brad.
       - Eu j tinha mudado para outro quarto - interrompeu-o Claire, corando. - Este aqui... O de John...  meu e de John - apressou-se a corrigir -  muito... Bem,
a decorao  mais adequada para um homem, principalmente porque o quarto de vestir anexo foi transformado em escritrio. John s vezes trabalhava at tarde.
       -  Mas, sair do seu quarto...
       Irene insistia, abanando a cabea, sem atender a tentativa que a cunhada fazia para mudar de assunto. E Claire parecia uma menininha apanhada em falta, reparou
Brad.
       Por qu? Por que no poderia mudar de quarto quando bem quisesse? Afinal, estava em sua casa. Lembrou-se dos olhos dela ao falar no amor do marido pela falecida
esposa.
       -  E que gostaria de redecor-lo: este quarto nunca foi o meu preferido.
       - Mas  o maior e melhor da casa! - Irene no acreditava no que ouvia.
       - , sim.
       Havia uma leve ironia na confirmao de Claire que a cunhada perdeu, mas Brad notou. Ento, ela era impulsiva e muito esperta; combinao perigosa! Concluiu.
       Ao entrar no quarto, Brad viu que era muito grande, com mveis slidos, de madeira escura, enormes. Gostou disso: as camas de casal inglesas, de tamanho padro,
mal acomodavam um homem grandalho, acostumado com o king size americano, como descobrira no hotel.
       Admirou os lenis e fronhas de linho macio, branco: dificilmente encontraria em outro lugar o conforto que a enorme cama de colunas prometia. Ento, ouviu
Irene dizer, disfarada e acusadoramente:
       - Voc trocou o estilo das roupas de cama, Claire! Claire ficou sem jeito e Brad imaginou se teria comprado roupas de cama novas especialmente para ele. De
fato, era uma mulher sensvel, pensou enquanto ela o conduzia ao banheiro bem planejado, com banheira e chuveiro separados.
       A sala de vestir no era muito grande, mas acomodava bem a escrivaninha, a cadeira estofada e a pequena estante. Ao passar de novo pelo quarto, para sair,
Brad aproximou-se da ampla janela. Dava para o jardim dos fundos e ele teve que sorrir ao notar o contraste que o tapete de grama e canteiros com flores faziam com
a horta muito bem cuidada. Lembrou-se que um trecho vazio do quintal de sua casa tambm testemunhava a teimosia dele: quando decidira retirar o "parquinho", seus
irmos tinham protestado contra o desrespeito ao smbolo sagrado de sua infncia. Mas ele o removera e ainda no decidira o que fazer no lugar. Na verdade, sua casa
se tornara muito grande depois que todos tinham se casado. Talvez devesse vend-la...
       Ao juntar-se s mulheres que o esperavam no corredor viu que Claire estava na defensiva e Irene atacava:
       -  Claire, combinamos dar o quarto de Sally para ele!
       - Achei que no ficaria bem: a decorao  muito feminina. Na verdade, Claire no queria que a enteada voltasse da lua-de-mel e encontrasse algum ocupando
o quarto dela. Desejava que Sally tivesse certeza que aquela casa ainda era dela e que poderia voltar quando bem entendesse, apesar de seu lugar ser na casa dela,
com o marido. Irene no se conformava e censurou:
       - Mas voc ter sado do seu quarto ...
       - No  "meu" quarto - cortou Claire, num impulso -, era o quarto de John... o nosso quarto - emendou, rpida, e calou-se ao ver que Brad se aproximava.
       Era difcil explicar, a Irene ou a outra pessoa, que depois da morte de John em vez de encontrar conforto no quarto que tinham partilhado ela o achava vazio
e preferira ir para o quarto menor de hspedes. Alis, esse quarto, pequeno e bonito, j era bem seu conhecido: em muitas noites de insnia, com medo de acordar
John, ela se levantara e fora ficar nele.
       -  Ento, Brad, o que achou? - perguntou Irene, com a confiana de quem sabe que a resposta ser positiva.
       - Acredito que ficarei bem acomodado aqui. - Ele voltou-se para Claire: - Ainda no tivemos oportunidade de conversar sobre os detalhes financeiros. Ser
que posso lhe telefonar mais tarde... esta noite?
       -  Esta noite? Oh, no... Preciso sair.
       - Sair? - Irene franziu as sobrancelhas. - Onde, com quem? Os trs j estavam no fim da escada e Hannah chegou ao patamar a tempo de ouvir Irene e, com um
sorriso maroto para Claire, comentou:
       - Com um homem  que no ... A no ser que voc esteja enganando todo mundo, Claire!
       "Enganando", cismou Brad. Ser que havia algum na vida dela? Pelo jeito que Claire ficou atrapalhada e vermelha, na certa ia sair com um homem.
       - Vai haver uma reunio com pais, na escola - explicou, por fim.
       - Eles no podem exigir que voc comparea! - revoltou-se Irene. - No ganha nada para trabalhar l,  uma voluntria!
       - Eles no "exigem", mas eu quero ir e irei - reagiu Claire. E, para Brad: - Desculpe no podermos conversar esta noite. Quem sabe amanh?
       Dessa vez Claire falara com firmeza. Brad percebeu que quando se tratava de algum que precisava de seu carinho e proteo, fosse criana ou adulto, ela era
determinada e at mesmo agressiva. Assentiu e despediu-se.
       Depois de deixar Irene em casa, ele percebeu que os efeitos da longa viagem se faziam sentir. Estava cansado, mas precisava ir  empresa. No pretendia comear
j as investigaes para determinar o que causava dificuldades na distribuio e vendas dos aparelhos de ar-condicionado na Inglaterra, mas queria conversar com
Tim. Percebera que ele estava nervoso e podia imaginar a razo: durante aqueles dois dias fora duro aguentar as imposies de Irene.
       - Voc presisa se casar! - dissera Laura, uma de suas irms, durante o almoo familiar no ltimo Dia de Graas.
       Ela e o restante da famlia aceitariam felizes a tarefa de lhe arranjar uma esposa.
       Por um instante, ele imaginou o que achariam de Claire, em seguida reagiu ao pensamento que at ento jamais lhe ocorrera. No era nada, tratou de se justificar.
Apenas se impressionara com a complexidade e contraste que notara na personalidade dela.
       -  Uau! Aquilo  que eu chamo de verdadeiro homem - comentou Hannah, comendo outro biscoito, quando ela e Claire estavam de novo a ss na cozinha. - Ele no
 nada do que eu esperava. Pensei que fosse daqueles que andam sempre de terno escuro e gravata. E que dentes! - suspirou, com ar sonhador. - Os americanos sempre
tm dentes lindos, fortes... daqueles que mordem gostoso.
       Claire a olhou, embaraada, e Hannah deu uma gargalhada gostosa:
       - E quase posso jurar que ele deve ser timo nisso de morder!
       -  Se est sugerindo o que eu penso que est... A amiga interrompeu-a:
       - No estou sugerindo nada. S disse que ele  um homem muito sexy... Quem sabe existe algo de verdade naquela tradio de pegar o buque da noiva, etc. e
tal.
       - Hannah!
       - Est bem; j sei! Voc fez voto de celibato. Mas me deixe apenas dizer isto:  um desperdcio perder um homem como esse.
       Depois que Hannah foi embora, levando o que restara dos biscoitos, Claire subiu e parou diante da sute principal. Abriu a porta devagar, quase com relutncia,
e parou no umbral.
       Aquele era o quarto que partilhara com John, como noiva e jovem esposa, no entanto no havia nele o menor eco daqueles anos de casamento. O quarto no transmitia
qualquer vibrao de pessoas que tivessem vivido intimamente na proteo de suas paredes, que tivessem rido ou chorado, que tivessem ficado tristes ou alegres, trocado
carcias, se amado.
       Percebera as rugas que se haviam formado na testa de Brad quando parara no meio do quarto e observara; ento, tivera certeza que ele percebera a falta de
vibraes.
 engraado como a gente se acostuma com as coisas, se adapta, as aceita e acaba pensando que aquilo  o normal, pensou. Precisa acontecer algo diferente,
aparecer uma pessoa diferente para que se veja as coisas de outra maneira.
       Ao alisar a colcha adamascada, Claire notou que sua mo tremia. Seu casamento, sua vida, sua privacidade... Tudo isso pertencia a ela e a mais ningum. No
tinha necessidade de se preocupar que algum, quem quer que fosse, descobrisse!
       O nico modo de ele... de eles descobrirem seria ela contar e no iria fazer isso.
       Brad estava no meio da conversa com Tim quando percebeu que sua carteira havia sumido. Reviu mentalmente o que fizera durante o dia e concluiu que devia t-la
deixado cair no momento em que se inclinara e depois abaixara-se para verificar o box do chuveiro na sute que iria ocupar na casa de Claire. Deu uma espiada no
relgio e achou que era melhor ir busc-la diretamente do que perder tempo telefonando para avisar quer ia. Cortando gentilmente as longas consideraes que Tim
fazia sobre o clima da Inglaterra e suas implicaes na venda de aparelhos de ar-condicionado, ele explicou que precisava ir embora.
       Quando estacionou no ptio interno da casa de Claire, Brad notou que a porta da cozinha estava destrancada, da maneira que lhe era familiar desde a infncia,
e entrou sem pensar.
       Encontrou-a na sala de estar, limpando com delicadeza a moldura de prata de uma das fotos. Ao v-lo, ela recolocou-a na mesinha, com ar de culpa. A atitude
submissa irritou-o. Indicou a fotografia e perguntou, brusco:
       - No houve um momento sequer em que voc teve cime dessa mulher e desejou ter sido a primeira, em vez de viver  sombra dela?
       Claire se perturbava com a presena inesperada dele e por sentir-se como se no tivesse direito de estar em sua prpria casa; mas se refez imediatamente e
teve raiva.
       -  Pode ser que na sua terra seja normal fazer crticas pessoais, perguntas ntimas - repreendeu-o rispidamente -, interferir na vida e pensamentos dos outros,
mas aqui no . Meu casamento...
       -  Seu casamento! - interrompeu-a Brad. - Na minha terra no se chama casamento o relacionamento que voc teve com seu marido! Na minha terra - ironizou -
mulher nenhuma aceita ser colocada em segundo lugar.
       - Eu no fui colocada em segundo lugar! - enfureceu-se Claire. - Quando me casei com John sabia quanto ele amava Paula e que...
       -  Que, o qu? Que iria ter que cuidar desta casa como o santurio de Paula em que ele a transformou? E voc foi feliz com isso, aceitou isso?
       O profundo desprezo que transparecia na voz dele estimulou Claire a se defender:
       - Voc no entende nada de casamento!
       -  No? - Brad desafiou-a com suavidade: - Sei, como todo homem, o que significa ser homem. Por que voc saiu do seu... desculpe... do quarto de John?
       - Depois que John morreu eu no quis...
       -  No quis o qu? Partilhar a cama com um fantasma? No havia por qu: desde que se casou aceitou o fantasma da primeira mulher de John na cama com vocs!
       No seria preciso Brad ouvir o grito abafado de Claire ou ver seu olhar angustiado para saber que havia ido longe demais. Percebeu-o quase imediatamente depois
que as cruis palavras saram de seus lbios, mas era tarde demais para se arrepender, para perguntar que diabo o havia levado a agir daquele modo. Logo ele, que
desde bem jovem aprendera a ter cuidado para no magoar pessoas vulnerveis, caso contrrio no teria conseguido criar suas quatro irms sem torn-las revoltadas
e infelizes.
       Por qu? O que havia de diferente nessa mulher que o fazia agir de maneira to agressiva e maldosa?
       -  Desculpe - falou em voz baixa, - exagerei.  que... - Indicou a foto, procurando palavras. -  que no consigo deixar de pensar como eu me sentiria se
voc fosse uma de minhas irms. No deve ter sido fcil estar casada com um homem que...
       - Que, o qu? - foi a vez de Claire desafiar. - Que amou a primeira esposa mais do que a mim?
       Quase sorriu ao ver que Brad desviava o olhar: conseguira perturb-lo. Bem feito! Fora ele quem insistira em falar no seu casamento, no ela, e merecia pelo
menos sentir-se envergonhado depois do que dissera, depois do que fizera com ela.
       - Bem, no sou uma de suas irms - forou Claire - e meu relacionamento com John, o nosso casamento era... - calou-se, enquanto seus olhos enchiam-se de lgrimas.
       - Voc devia am-lo muito - murmurou Brad.
       Onde e como Tim entrava na vida dela? Ele se perguntava.
       Enquanto isso, Claire admitia que de certa maneira o que Brad dissera era verdade, s que amava mais o que John fizera por ela do que o prprio John. Mas
apenas ela sabia disso e no contaria a ningum, muito menos ao homem que estava na sua frente.
       - Faz dois anos que seu marido morreu e voc conserva a casa como ele gostava - comentou ele. - Por qu?
       Ser que todos os americanos eram to curiosos, to intrometidos na vida dos outros? Indagou-se Claire irritada. De que maneira faz-lo compreender que suas
perguntas eram invasivas e indesejadas?
       -  Porque era a casa de John.
       Ela esperava que ele esquecesse aquele assunto e dissesse por que voltara. Mas, em vez disso, Brad utilizou o que ela dissera com uma habilidade e rapidez
felinas:
       - Era... A casa foi dele, no passado. Voc est no presente e deve deixar o passado para trs.
       O que aprontara agora? Preocupou-se Brad ao notar que o rosto dela mudava, que Claire se tornava tensa.
       -  Nem sempre o passado  fcil de esquecer - mal se ouvia a voz dela. - Mesmo quando a gente quer...
       Calou-se e Brad achou que ela dissera mais do que queria dizer.
       - Por que voltou? - Claire desviou o assunto. - Mudou de ideia, resolveu no ficar aqui?
       Era evidente que ela no o queria ali, pensou Brad, e sem dvida a cunhada a pressionara para aceit-lo como hspede. Por qu? Porque estava querendo proteger
o emprego do marido ou porque queria proteger seu casamento?
       Normalmente ele desistiria de hospedar-se l, ajudando Claire a livrar-se do anzol em que Irene a fisgara, mas reconhecia que no queria perder contato com
ela. Pelo menos por enquanto, at que...
       At o qu? At descobrir o que havia nessa mulher que provocava nele reaes e emoes at ento desconhecidas? Ela o intrigava, desafiava, provocava... excitava,
e Brad tinha absoluta certeza de que se um dia fossem para a cama no haveria fantasma algum entre eles.
       -  No. No mudei de ideia - ele falou devagar, depois acrescentou, suave: - Longe disso.
       Era interessante o jeito que ela corava, como se fosse uma jovenzinha inexperiente em assuntos do sexo.
       -  Gostaria de ir at "meu" quarto, se me d licena - continuou. - Qual  mesmo a porta dele?
       Claire ficou ainda mais vermelha: era claro que ele sabia qual era a porta do quarto que ia ser dele. Aceitar o desafio evidente em seu olhar seria arriscado:
ela duvidava que poderia medir foras com aquele homem, pois sua imaginao criara uma imagem ntida de Brad sorrindo, amoroso e gentil, conduzindo nos braos uma
mulher para a grande cama de colunas, onde fariam um amor intenso e ertico.
       Mas essa mulher no era ela. Nunca poderia ser ela.
       Ao ver que Claire abaixava os olhos e seu rosto se tornava sombrio, triste, Brad irritou-se consigo mesmo por atorment-la daquela maneira. Era o tipo de
atitude que no fazia parte do seu carter e muitas vezes repreendera o irmo por fazer isso.
       - Est bem... - disse, calmo. - Acho que posso encontrar o quarto sozinho.  que perdi minha carteira e talvez ela tenha cado l.
       -  Sua carteira? Ah! Eu...
       Ele voltara por causa da carteira! Ento, por que fizera tudo para dar outra impresso? No entendia aquele homem!
       Permaneceu parada, olhando-o subir os degraus de dois em dois e ir direto  sute principal.
       De sbito, Claire sentiu um choque: desde que Brad sara dali com Irene estivera esperando que ele voltasse.
       CAPITULO IV
       Claire fez uma careta ao sair da escola e ver que caa uma chuva grossa.
       O tempo estava bom quando sara de casa, ento preferira ir andando em vez de pegar o carro.
       Hesitou um momento, pensando se no seria melhor entrar e chamar um txi. Ento, como j estava molhada, ergueu a gola do casaco e tratou de andar depressa.
       Enquanto decidia se chamava um txi ou no, vira um carro parar-diante da escola e conclura que o motorista fora buscar algum.
       Mesmo quando ouviu o motor e viu a luz dos faris iluminando a rua adiante dela no percebeu o que acontecia. Inconscientemente, esperava que o carro aumentasse
de velocidade, passasse por ela e fosse embora. Mas ele no o fez e passou a acompanh-la, andando rente  calada. Apressou mais o passo, de cabea baixa, dominando
o mpeto de voltar correndo para a escola. Sentia-se ameaada e comeou a entrar em pnico.
       Contavam tanta coisa! Liam-se tantos casos sobre homens que atacavam mulheres sozinhas. Sua boca secou e o corao comeou a saltar no peito. Aquela zona
da cidade no era residencial; s havia por ali lojas fechadas, edifcios comerciais vazios e nenhum movimento de pedestres. O trfego era movimentado e vrios carros
passavam, rpidos, mas ningum reparava no automvel que a perseguia lentamente.
       Com medo de voltar, Claire acelerou mais o passo. Suava, de to nervosa, e as batidas do corao ecoavam to alto em seus ouvidos que deixou de escutar o
motor do carro.
       Todos seus msculos enrijeceram quando percebeu o verdadeiro motivo de no escut-lo: ele havia parado. Ouviu a porta bater e passos rpidos aproximaram-se.
       -- Claire... Claire!
       O homem que a perseguia sabia seu nome! Pensou estarrecida. Tremendo dos ps  cabea, parou e voltou-se. Seua olhos arregalaram-se quando viu Brad.
       Brad! Ele a seguira. Uma fria cega a impediu de falar e de mover-se.
       - Voc est ensopada! Disse ele, ao alcan-la. - Entre no carro...
       Estendeu a mo e Claire recuou, o dio que fervia em seu intimo espelhando-se nos olhos.
       - O que foi? O que h de errado? - impacientou-se Brad. Claire passou a mo nos cabelos e estremeceu quando grossas gotas de gua escorreram por dentro da
gola.
       - O que h de errado? - a voz dela soava esquisita, spera. - Se no me engano, voc estava me seguindo.
       Ele ergueu as sobrancelhas, sem entender:
       -  , vim atrs de voc. Ia voltando da empresa para o hotel e a vi sair da escola...
       S ento, lembrando-se do modo que ela recuara, Brad caiu em s: no pensara que Claire podia tom-lo por um estranho, um desses pervertidos que perseguem
mulheres desacompanhadas,
       - Ei, calma! Est tudo bem - tentou confort-la. - Desculpe, mas eu...
       - Desculpe? - a voz dela tremia tanto quanto seu corpo.
       - Claire!
       - No ponha as mos em mim!
       Ela recuou mais, para evitar a mo que ele estendera, quando algum virou a esquina correndo e deu-lhe um encontro, jogando-a contra Brad. Teria cado se
ele no a segurasse.
       Evidentemente irritado por ela ter atrapalhado seu exerccio, o rapaz praguejou e voltou a correr.
       - Voc est bem? - preocupou-se Brad. - Ele a machucou?
       - Estou bem - mentiu ela.
       A pancada que o homem lhe dera e o medo que tivera ao imaginar-se visada por um bandido haviam sido demais. Sua cabea girava, pensava confusa e lentamente,
as costas doam no local em que o esportista tinha batido. Para completar, uma forte nusea revoltou-lhe o estmago e estava, mesmo, completamente molhada. "Bem"
 um adjetivo que se achava muito longe de indicar como ela se sentia.
       Brad com certeza compreendeu isso e em vez de aceitar a bem-educada resposta, rejeitou-a:
       - Est bem, coisa nenhuma! Est ensopada e tremendo. Venha, deixe-me lev-la para casa. Voc precisa de um bom chuveiro, bem quente, e de uma bebida para
reanimar, no de pedidos de desculpas debaixo de chuva! Acha que est bem para andar ou quer que eu a carregue at o carro?
       Ele se atrevia a perguntar se ela queria o qu? Claire no podia acreditar. Esquecendo-se que ainda estava entre os braos dele, ergueu orgulhosamente a cabea
e em vez de encar-lo, como pretendia, viu a boca de trao firme, que se encontrava ao nvel de seus olhos.
       Aturdida, inclinou mais a cabea para trs e passou a lngua pelos lbios secos, enquanto uma onda de sensaes desconhecidas tomava conta de seus sentidos
alterados.
       Os cabelos, ensopados pela chuva, formavam cachos que lhe emolduravam o rosto e ela parecia ter vinte e quatro, no os trinta e quatro anos que tinha. A claridade
emitida pela lmpada do poste tornava a pele de seu rosto translcida, de uma maciez perolada, to linda que Brad no pde evitar de toc-la. As inglesas tinham
ctis to delicada, plida, e a fina estrutura ssea de Claire lhe conferia uma fragilidade que despertava nele emoes diferentes.
       A proximidade do corpo de Brad, seu calor, fez com que Claire involuntariamente se aninhasse nos braos fortes, com um profundo suspiro.
       Os dois choques consecutivos que tivera haviam-na afetado emocionalmente fazendo-a perder-se em uma regio estranha na qual Brad era a nica referncia conhecida,
ento agarrava-se a ele levada por um impulso. Seus olhos, enormes no rosto plido, fixavam os lbios dele.
       Aqueles lbios... Era esquisito pensar que fora beijada por eles. Quentes, dominadores e ao mesmo tempo suaves, exigentes e excitantes, com o sabor de algo
perigoso e proibido.
       Tinha tanta vontade de seguir-lhe o contorno com os dedos, de...
       A luz dos faris de um carro que cruzava a esquina a fez voltar  realidade.
       Com o rosto em fogo por zanga e embarao, livrou-se de Brad recuou assustada com o que estivera pensando e sentindo.
       - Venha, vamos para o carro.
       A voz dele era tranquila e determinada, como se vivesse abraando mulheres que olhavam para sua boca e ficavam pensando... Bem, talvez no fosse bem assim,
Claire argumentou consigo mesma, enquanto se deixava levar para o automvel. Sabia pouqussimo a respeito dele...
       - Sinto muito ter lhe dado aquele susto - desculpou-se outra vez, enquanto a ajudava a entrar.
       Como no tinha coragem de encar-lo, ela tratou de se ocupar colocando o cinto de segurana.
       - Como eu disse - prosseguiu Brad -, ia da empresa para o hotel quando a vi saindo da escola e... Deixe-me ajud-la com isso.
       Sem esperar consentimento, afastou gentilmente as mos dela e inclinou-se para encaixar o fecho do cinto de segurana.
       Ele tambm estava molhado e Claire sentiu o clido odor da chuva em seus cabelos e na pele. A nuca, exposta enquanto ele mexia no cinto, era rija, morena
de sol.
       Sorrindo e sem perceber, ela comeou a erguer a mo e de sbito estremeceu, chocada com o que ia fazer. O que, afinal, estava acontecendo? A simples ideia
de tocar a pele dele, de passar as mos pelos cabelos que a chuva tornara levemente encaracolados, era estranha para Claire e a tornava to diferente de como sempre
fora! Ela mal podia acreditar que estivera por fazer isso.
       Teve um sobressalto ao ouvir Brad perguntar, preocupado:
       - O que foi? Aquele homem a machucou quando lhe deu o encontro? Foi uma pancada forte...
       - No, no. Estou bem - respondeu, brusca.
       - No  verdade: voc no est bem - discordou ele, com suavidade.
       Ainda estava inclinado sobre ela, fitando-a, e o corao de Claire deu um salto quando tentou encar-lo. Desistiu.
       - Voc deve estar muito abalada. Levou um susto tremendo e pela sua reao a trombada, aquele sujeito a machucou. Diga, est...
       - Estou bem.  que no gosto que toquem em mim - respondeu Claire, hesitante. - Muita gente no gosta.
       Tinha medo que ele fizesse mais perguntas, que a forasse a revelar..
       Pior, ainda, pensou angustiada: ele poderia perguntar por que se aninhara em seus braos se era verdade que detestava que a tocassem.
       Felizmente ele disse, apenas:
       -  , tem gente que no gosta.
       Deu um puxo para ver se o cinto de segurana ficara bem preso, endireitou-se, fechou a porta e foi acomodar-se ao volante.
       Minutos depois, ao parar diante da casa dela, ofereceu:
       - Vou lev-la at a porta,
       Claire sacudiu a cabea com energia:
       -  No precisa. - E acrescentou, depressa: - Ainda est chovendo e voc vai ficar mais molhado.
       Por instantes, ficou tensa, achando que Brad ia insistir em entrar, no entanto ele assentiu:
       - No esquea do banho bem quente e talvez um gole de conhaque. No sei a que horas vou sair amanh cedo, mas se concordar, trago minhas malas antes do almoo.
Tenho uma reunio  tarde e s terei mais tempo  noite, ento combinaremos os termos de minha estada aqui.
       - Est bem - confirmou Claire.
       Enquanto a olhava correr para a casa sob a chuva forte, Brad imaginou se estaria agindo certo. Era evidente que o desejo que Claire despertava nele era mais
do que impulso masculino.
       Pouco antes, quando a tivera nos braos, quando ela olhara daquele jeito para ele, para sua boca...
       Vamos, pare com isso! Repreendeu-se. Voc no atravessou o Atlntico para complicar sua vida se interessando por uma mulher que pode estar envolvida com outro
homem.
       Ele no era do tipo que gosta de relacionamentos sexuais apenas pelo sexo, sem qualquer outro sentimento. Nem ela, imaginou. Isso significava que era melhor
acabar com aqueles pensamentos e impulsos selvagens que se tinham desencadeado desde o momento em que a vira. Precisava sepult-los na parte mais escura de sua mente,
determinou-se, enquanto Claire entrava e fechava a porta.
       Momentos depois, engrenou a marcha e foi embora.
       - No!
       O som da prpria voz acordou Claire. Sentou-se na cama, abraou os joelhos e procurou controlar o corpo, que tremia.
       Com os olhos secos, abertos no escuro, expulsou as imagens do pesadelo que lhe danavam na mente. Era o mesmo pesadelo que a atormentava h muito tempo, s
que nos ltimos anos diminura de frequncia e s acontecia quando estava nervosa ou com stress.
       Naquele momento, mais do que lutar para livrar-se da sensao ruim do sonho mau, j que ele terminara e estava acordada, tentava compreender a mudana que
se dera no final. At ento, o pesadelo fora sempre igual, com os mesmos lances. O homem, o quarto escuro, as mos grandes tocando-a, a fria dele ao ver-se rejeitado,
a fuga pelas ruas escuras, estreitas e molhadas, ele correndo atrs; ela corria, s e desprotegida, ouvindo apenas a respirao pesada e os passos do perseguidor,
cada vez mais perto.
       Sempre conseguira escapar acordando antes que ele a alcanasse. Mas desta vez...
       Seus dentes bateram uns contra os outros, enquanto um arrepio lhe percorria o corpo.
       Desta vez no fora assim. Ele a segurara por trs, com ambas as mos, e a imobilizara. Ela lutara freneticamente contra o pnico que ameaava domin-la ao
sentir o repelente toque daquelas mos. Virara a cabea a fim de implorar misericrdia e ento o rosto que vira no era o que esperava ver. Era Brad que a segurava,
que olhava intensamente para ela. Inexplicavelmente, assim que o reconhecera, o toque repelente tornara-se agradvel, confortador e a perturbara, sim, mas de um
modo agradvel.
       No sonho, o medo se tornara prazer; era gostoso sentir seu cheiro, os braos dele rodeando-lhe o corpo, puxando-a para junto de si, o rosto apoiado em sua
cabea, a voz sussurrando para acalm-la.
       -  voc... - dissera ela, baixinho.
       Mal conseguia respirar, o corpo trmulo colado ao dele, sentindo-se apoiada, protegida, rindo de si mesma por ter sentido tanto medo e chorando por causa
das lembranas que tinham causado esse medo.
       Quando ele envolvera o rosto dela com as mos e inclinara o rosto para beij-la, ela correspondera ao beijo com ardor, entreabrindo a boca, antecipando o
prazer que o corpo forte, moreno e nu despertaria no dela - um prazer que no sonho aceitara como bom e j conhecido. No era como se fossem amantes recentes: havia
entre os dois uma profunda harmonia, um antigo conhecimento.
       Ele fora delicado, enxugara as lgrimas dela. Claire sentira alvio emocional no contato com ele, descobrira que a seu lado sentia-se segura, protegida, amada.
Enfim, uma mulher no verdadeiro sentido da palavra.
       No escuro do quarto, Claire mordeu os lbios e fechou as mos com fora, numa atitude de rejeio. Sempre fora "uma mulher". No precisava de homem, de nenhum
homem, para confirm-lo. Muito menos ainda de Brad!
       No tinha a menor ideia do que provocara aquele sonho com ele e sentiu vergonha, apesar de estar s e no escuro, ao perceber que seu corpo ainda ardia em
desejo...
       Quando Sally lhe dissera que devia voltar a casar-se, fora fcil balanar a cabea e responder, calma, que era feliz sozinha.
       Nenhum tipo de anseio ou desejo perturbara seus anos de solteira. Certa vez, quando tomava ch com uma amiga, ela, comentara que o garom que as servia tinha
um corpo fantstico; isto a surpreendera tanto pelo fato de a amiga ter notado o corpo do garom, quanto por ela nem ter reparado.
       Claro, houvera ocasies em que ela se perturbara ao notar que sua sexualidade, ou a falta dela, era algo muito estranho para a poca, mas no pensara nisso:
John, com seu jeito tranquilo, era um homem determinado e a confiana que tinha no modo que o casamento deles funcionava a ajudara a esquecer as dvidas a respeito
da sua ausncia de desejo sexual.
       Depois, viva e com trinta e quatro anos, Claire sentira-se a salvo no interior da couraa de segurana que construra. Vrios homens haviam demonstrado interesse
por ela, que, com muito jeito, sempre deixara claro que no correspondia. Jamais imaginara que um dia viria a ter interesse sexual por um homem.
       Sentada em sua cama, perplexa, tinha a sensao que uma parte de si mesma a havia trado, se tornara estranha e estava fora de controle. Perigosamente fora
de controle, reconhecia. Procurou ignorar o fato de que no fora apenas no sonho que correspondera com entusiasmo e paixo aos carinhos de Brad.
       Outro arrepio percorreu-lhe o corpo, agora gelado pelo ar frio da noite; seu corao voltara ao ritmo normal. Cansada, deitou-se de novo, fechou os olhos
e tratou de dormir.
       Desta vez no teve sonhos.
       Claire deu um sorriso triste ao ler o carto-postal de Sally. Chegara naquela manh e mostrava uma paisagem idlica de uma praia muito branca, em meia-lua,
e o mar de um azul incrvel - "a vista da varanda do nosso chal", escrevera Sally.
       Passavam a lua-de-mel nas ilhas Seychelles e o hotel, de acordo com as palavras maravilhadas da enteada, era mais encantador do que o folheto de turismo prometia.
       Tipicamente, depois de garantir que era maravilhosa, incrvel e espantosamente feliz, Sally brincava com Claire por ter pegado seu buque de noiva e fazia
uma referncia ao fato de trs solteiras o terem pegado ao mesmo tempo:
       "Lembre-se", advertia a madrasta, "voc precisa de um homem apenas seu: no deve dividi-lo!".
       O carto da enteada a impedira de pensar no transtorno que Brad trouxera  sua vida. Mas quando ouviu um carro entrando no jardim, tornou-se tensa e s se
descontraiu quando verificou que se tratava de Irene.
       - Vou ao supermercado e vim ver se voc precisa de alguma coisa - informou a cunhada, entrando. Suspirou: - Pobre Tim, ele quase no dormiu esta noite. Claire,
se Brad lhe disser alguma coisa sobre a empresa...
       - Tenho certeza de que ele no vai falar a esse respeito comigo - interrompeu-a Claire.
       -  Talvez no, mas vai ficar aqui e se... Bem, todo mundo se abre com voc e como vo passar muito tempo juntos.
       - No, no vamos - contrariou ela. - Pretendo v-lo raramente.
       - Mas no caf da manh vo estar juntos e, com certeza, no jantar. - teimou Irene. - Quero dizer, um dos motivos de Brad querer ficar "em famlia" foi justamente
para no ter que jantar sozinho num restaurante de hotel.
       Jantar juntos! Claire engoliu seco.
       Mais tarde, ao entrar na cozinha, deu com o livro de receitas americanas que a cunhada levara para ela. Irritou-se e teve um mpeto de rebeldia.
       Se era obrigada a alimentar Brad, iria faz-lo  sua maneira! Determinada, foi at o freezer e pegou os ingredientes que queria.
       John gostava muito da comida dela, apreciava pratos caseiros, simples, e com o passar do tempo Claire adaptara as receitas do seu jeito, de modo a torn-las
saborosas e nutrientes. Achava tima, por exemplo, sua verso do pastelo de carne, servido com deliciosa musse de abacate e salada de legumes e verduras.
       Torta de abbora e carne assada no eram l essas coisas e j que Brad decidira ficar "em famlia", como dissera Irene, ia ter que comer o que ela quisesse
fazer e pronto!
       Ficou to entretida na cozinha que quando olhou para o relgio levou um susto: quase meio-dia. Passou uma das mos no rosto e sujou-o com farinha de trigo.
O telefone tocou e teve certeza que era Brad, nem ela sabia explicar por qu.
       Relutante, limpou as mos no avental e foi atender. Era ele:
       - Estou ligando para pedir desculpa pelo atraso. Houve um problema aqui na empresa e acabo de ficar livre. Tudo bem se for a agora?
       - Tudo bem - respondeu Claire, orgulhosa por impedir que o tremor de seu corpo transparecesse na voz.
       S depois de desligar  que pensou no assunto. Passava do meio-dia, ser que ele imaginava que ela ia esper-lo com um almoo? Tudo que tinha era alguns pacotes
de sopa instantnea e frutas. O que, exatamente, Brad queria dizer ao afirmar que gostaria de ser como uma pessoa da famlia?
       Esperava que ele tivesse o mesmo horrio de trabalho de Tim: se assim fosse s o veria  noite. Bem, tinham combinado que conversariam a respeito da estada
dele nessa noite e ela deixaria bem claro que quanto menos contato houvesse entre eles melhor.
       CAPITULO V
       Passava da uma da tarde quando Brad chegou, afinal, e entrou em casa carregando duas malas.
       - Posso lev-las direto para cima? - perguntou a Claire, que achou o jeito dele meio brusco.
       Ser que ele tambm estava em dvida e se perguntava se a ideia de ficar na casa dela era realmente boa? Imaginou, enquanto o esperava junto da escada.
       - Desculpe no ter mantido o horrio que combinamos - disse Brad ao descer. - A empresa foi assaltada ontem. No levaram nada do estoque, mas roubaram peas
carssimas dos computadores - contou, com ar sombrio. - D impresso que quem assaltou sabia o que queria levar.
       - E os seguranas? - perguntou Claire. - Eles deviam ter...
       - Que seguranas? - interrompeu ele, aborrecido. - Parece que por economia despediram trs dos quatro que tnhamos e que o segurana estava no extremo oposto
do local quando houve o assalto. Economia que saiu cara!
       A irritao de Brad fez com que Claire se preocupasse com Tim. Esperava, sinceramente, que no tivesse culpa do ocorrido. Tecnicamente, ele no era responsvel
pelo espao que abrigava os escritrios e o centro de distribuio.
       - Ainda bem que ningum saiu ferido - foi o nico comentrio que ela achou adequado.
       - Quanto a pessoas, no - concordou ele -, mas quanto a coisas, sim. - Quando tornou a falar, foi de maneira fria e dura. - Ultimamente nossos lucros vm
sendo "feridos" pelo custo de reposio de equipamentos roubados e com eles a vantagem de termos uma fbrica de aparelhos de ar-condicionado aqui. Claro, o seguro
cobre os roubos, mas a continuidade deles resulta num aumento muito grande do prmio, alm das perdas causadas pela interrupo no trabalho. - Fez uma pausa e sacudiu
a cabea: - Bem, voc nada tem a ver com isso.
       - Tim  muito consciencioso - Claire apressou-se a defender o concunhado, com a voz meio embargada. - Irene est preocupada com ele. Eu tambm. Ele tem trabalhado
demais ultimamente e o cansao...
       -  evidente que vocs gostam muito dele.
       - Sim, muito - confirmou Claire, sem notar o olhar atento dele.
       O carto-postal de Sally estava sobre a mesa e Brad no pde deixar de ler a parte final. Quem seria o homem que Claire no devia dividir? Tim? Podia ser:
ela agia de modo protetor com ele, entendiam-se bem...
       Brad gostava de Tim, era um homem bom, se bem que um tanto fraco e indeciso, mas ao imagin-lo amante de Claire era dominado por um antagonismo e uma raiva
to grandes que se ele estivesse por perto ia dar encrenca.
       Ei, repreendeu a si mesmo, voc no deve se envolver! S porque ela  sozinha, porque seu casamento no parece ter sido l essas coisas, porque ela o faz
arder como as chamas do inferno quando a toca, s porque vive pensando em ir para a cama com ela no quer dizer que...
       - ... e no sei o que voc pretende quanto s refeies - dizia Claire. - Ainda no falamos nisso e Irene comentou que voc pretende ficar aqui como "em famlia".
       - Isso mesmo.
       Brad no pde deixar de imaginar-se tomando o caf da manh com ela, olhando-a movimentar-se pela cozinha, os cabelos ainda molhados do banho, sem maquilagem,
o corpo bonito tentadoramente nu sob o roupo. Quando Claire sentasse a seu lado, sentiria o cheiro gostoso de sua pele, o decote em V estaria muito perto dele,
to perto que bastaria inclinar-se para mergulhar o rosto no colo dela, para roar os lbios, a lngua, no recanto mais secreto da feminilidade e...
       Que droga! reagiu zangado. Ser que estava passando por alguma mudana hormonal que o fazia ter pensamentos prprios de um adolescente? Ridculo, pensou com
amargura.
       - Ento, voc vir jantar sempre aqui? - indagava Claire.
       - Normalmente, sim. Mas nos primeiros dias uma vez ou outra terei que trabalhar at mais tarde e a  melhor que coma alguma coisa por l, mesmo.
       Pensando na atitude defensiva de Tim diante dos problemas que estava ali para resolver, Brad ficou srio. Parecia-lhe que ele no era positivo e determinado
o suficiente para o cargo que ocupava, mas no queria fazer julgamentos apressados.
       At ento, as tarefas que os tios lhe tinham dado no haviam sido fceis, mas esta as superava. Seria uma roubada envolver-se com Claire, que de certa maneira
era parente de Tim e gostava muito dele. Mas tinha que reconhecer uma coisa: se Tim e Claire eram amantes, estava na cara que o relacionamento deles no era apaixonado.
       -  s isso - perguntava Claire -, no ficou mais nada no carro?
       - Hein? Ah, sim! - Brad encaminhou-se para a porta. - H outra coisa, vou buscar.
       Voltou momentos depois carregando cuidadosamente algo embrulhado em um carssimo suter de cashmere.
       - Encontrei-o no poro, perto das caldeiras. Acho que foi abandonado pela me e...
       O suter de cashmere se mexeu e um miado incrivelmente forte saiu dele.
       -  um gato! - surpreendeu-se Claire.
       - Um filhotinho de gato - corrigiu Brad, desdobrando o suter para mostrar seu ocupante. - No tem mais do que seis semanas de vida, acho. De qualquer modo,
ela no conseguiria sobreviver sozinha.
       - Ela? - perguntou Claire, com a pouca voz que conseguiu.
       - Bem, no tenho certeza, mas  to bonita que s pode ser uma fmea.
       Pegando o bichinho com delicadeza inesperada num homem to grande, ele ofereceu-o a Claire. O primeiro pensamento dela foi que era to pequenino que dava
medo peg-lo; o segundo foi, como Brad dissera, que a gatinha era linda: malhada de preto, branco e bege, com patinhas brancas e enormes olhos verdes.
       - John no gostava de bichos - ouviu-se dizendo, hesitante. - Ele nunca admitiu nenhum em casa e achava que...
       - Ele achava - interrompeu-a Brad. - E voc, o que acha? Claire no entendeu o porqu da raiva que viu nos olhos dele.
       - A casa era de John - lembrou-o - e eu...
       - E voc o qu? Era uma visita aqui dentro? Mas agora a casa  sua. Ou quem sabe no ? De qualquer modo, pode ser uma casa para esta gatinha. Mas, mesmo
sendo um bichinho, ela precisa ficar em um lugar onde seja mais do que uma visita: precisa ser querida, amada.
       Essas palavras magoaram Claire profundamente, revelando uma ferida que ela ignorava que existisse. Sem pensar, estendeu as mos e pegou a gatinha. To pequenina
e leve! Encostou-a ao peito e, segundos depois um rudo estranho chamou-lhe a ateno. Por fim, identificou-o:
       - Ela est ronronando!
       - Gostou de voc - comentou Brad.
       - No vou deixar que ela entre na sala de visitas... - Claire falava mais consigo mesma, enquanto abraava a gatinha, num gesto protetor.
       - Acho que ela ainda no sabe comer - avisou Brad. - Ter que aliment-la por meio de um conta-gotas e  bom diluir um pouquinho o leite, que deve estar 
temperatura ambiente. Criamos trs gatinhos recm-nascidos assim. As crianas encontraram-nos no velho celeiro... eram s pele e ossos. Pensei que no fossem sobreviver.
       Brad sorriu, emocionado ao lembrar da determinao de sua irm Mary-Beth em salvar os gatinhos. Ele ficara aterrorizado por achar que morreriam: era a primeira
vez, desde a morte dos pais, que se interessava por alguma coisa.
       A gatinha miou, protestando: Claire a colocara no cho. Ao notar a expresso terna nos olhos dela, mais uma vez ele admirou a habilidade que os filhotes de
qualquer espcie tinham para sobreviver.
       - Eu nunca tive um gatinho - Claire hesitava. - No sei se...
       - E fcil - animou-a Brad. - Ela precisa de uma caixa para dormir, de comida e muito amor... Ah, sim! E uma bacia com pedrinhas para gatos, se voc no quiser
ter xixi e coco por todo canto. Nunca teve um bichinho de estimao quando criana?
       Ela fez que no:
       - Eu... fui criada por minha tia-av. Meus pais morreram quando eu era bem pequena. - Claire percebeu profunda pena no rosto de Brad e acrescentou: - Tudo
bem. Nem sequer me lembro deles, quer dizer, no claramente. S...
       Clare controlou-se, no querendo contar quantas vezes adormecera chorando quando era pequena, lembrando-se do perfume da me, da voz do pai. Voltou a falar:
       Minha tia no queria bichos em casa e John...
       Criada por uma tia-av! Isso explicava a atitude obediente dela, seu jeito quase antiquado de agir e de se vestir. Brad imaginou se ela teria ideia de como
era atraente. Ento, lembrou a si mesmo, com ironia, que sem dvida outro homem j devia ter-lhe dito isso.
       Ser que o relacionamento dela com esse homem vinha desde antes da morte do marido? Ele achava que no e seria normal ela aceitar um afeto oferecido num momento
de solido, principalmente se a oferta viesse de um homem bom, que j conhecesse...
       Com certeza, Claire sabia que nada podia esperar desse lipo de relao, que enganava a si mesma aceitando uma triste e rida imitao do que o amor, a amizade
e o sexo podem segnificar para um homem e uma mulher.
       Sentia revolta por ela ter aceito um relacionamento to insatisfatrio. Revolta e tristeza.
       E quanto ao homem envolvido, fosse ele quem fosse, Tim ou qualquer outro, no era homem de verdade, na opinio de Brad, se fora capaz de tirar vantagem de
uma mulher num momento de extrema vulnerabilidade.
       Riu de si mesmo: tirar vantagem de Claire! Era uma mulher adulta, inteligente e s porque parecia, porque ele sentia...
       Claire acariciava a gatinha, falando com ela, e Brad entendeu por que John a escolhera para madrasta de sua filha. Nunca vira mulher to meiga e dedicada
a seres indefesos. Ficou profundamente emocionado e foi difcil dominar o impulso de abra-la.
       Diabo! No havia lugar em sua vida para uma mulher como essa. Ele tinha planos, sonhos. Queria construir aquele veleiro, sair pelo mar...
       Droga pare com isso! Zangou-se consigo mesmo e, sem jeito, sugeriu:
       - Voc precisa escolher um nome para a gatinha.
       -   verdade. - Ela sorriu, feliz com o bichinho macio e ronronante junto ao peito. - Ento, voc vir jantar hoje?
       - Sim, se no atrapalhar muito.
       Tinha uma reunio com Tim marcada para as trs da tarde,
       Precisava ler uns relatrios, mas isso poderia ficar para depois, e queria telefonar para casa a fim de ver se estava tudo bem. Apesar de seus irmos serem
todos adultos, continuava sentindo-se responsvel por eles.
       Passou os olhos pelo carto-postal outra vez e lembrou-se que sua irm Mary-Beth tivera alguns problemas no casamento. De cabea-quente, impulsiva, decidida,
com ideias arrojadas demais, assim mesmo ela era sensvel e indefesa. Uma colega de trabalho do marido de Mary-Beth tentara namor-lo e, se bem que nada tivesse
acontecido, ela ficara magoada e furiosa porque ele se envaidecera com as atenes da moa. De fora, Brad pudera ver os dois lados da situao. H algum tempo sua
irm passara a dedicar-se demais ao filhos; o marido, Abe, apesar de amar muito a ela e s crianas, sentira-se em segundo plano e gostara de saber que ainda era
capaz de atrair atenes femininas e no entendera por que Mary-Beth se zangara tanto: afinal, ele contara o que estava acontecendo.
       Claire notou que Brad olhava o carto-postal, de cenho franzido, ento a gatinha comeou a miar e desviou-lhe a ateno.
       -  Acho que ela est com fome - sugeriu ele. - Se voc tiver algum colrio, use o conta-gotas para dar-lhe leite. Se quiser, posso trazer a bacia e as pedrinhas,
quando vier.
       John jamais se oferecera para fazer algo parecido, pensou ela; era meio antiquado e preferia que as obrigaes do homem e as da mulher permanecessem separadas.
Seu dever era sustentar a casa, dar conforto  famlia, e sempre agira de maneira a Claire no ter que se preocupar com isso. Jamais lhe ocorrera oferecer-se para
fazer qualquer tipo de compra e ela sabia que se lhe pedisse que o fizesse ele no gostaria: "essas coisas" eram responsabilidade dela.
       A gatinha aceitara gulosamente  leite, at seu pequeno estmago encher. Claire arranjou uma caixa de sapatos para servir de cama temporria, forrou-a com
algodo e cobriu-o com uma flanela; imediatamente a gatinha enrodilhou-se dentro dela e adormeceu profundamente.
       Enquanto a admirava, Claire imaginava como John ficaria zangado com aquela invaso felina.
       -  S no se esquea de uma coisa - disse com firmeza pura a criaturinha adormecida -, a sala de visitas est fora dos seus limites!
       Poderia at jurar que a gatinha dera um sorriso felino, maroto, ao ouvir aquelas palavras. Sempre quisera ter um bichinho e sentia-se muito feliz.
       Feliz... Era isso! Ela ia chamar-se Felcity. Felicidade... Disse a palavra em voz alta e o sorriso transformou-se numa alegre risada; a gata abriu os olhos
e espreguiou-se, com ar de que aprovava o nome.
       Claire telefonou para uma amiga que tinha gatos, conseguiu o nome e telefone de um bom veterinrio e logo depois marcava o dia da consulta de Felicity no
calendrio pendurado na cozinha. Ento, reparou na marca vermelha, seis semanas adiante: nesse dia deveria almoar com Silvana e Patrcia.
       Estava certa que no teria dificuldade alguma em manter a promessa que as trs tinham feito de resistir ao suposto poder do buque de noiva. Com as outras
duas seria diferente. Bom, pelo menos ela esperava que fosse. Patrcia acabaria curando-se da paixonite adolescente pelo primo e descobriria que estava pronta para
dar seu amor adulto a um homem que a amasse tambm. Para Silvana seria mais difcil confiar em um homem a ponto de entregar-lhe o corao. Difcil, mas no impossvel,
e Claire desejava sinceramente que logo acontecesse; desconfiava que havia uma garota solitria, infeliz, por trs da aparncia de independncia e determinao que
Silvana ostentava, uma garota que vira o casamento dos pais desmoronar e com ele se desfizera sua segurana. Ento, deixara de confiar na possibilidade de duas pessoas
se amarem de verdade.
       Fizera a promessa com as duas, afirmava Claire a si mesma, porque elas precisavam de apoio e desejava com sinceridade que um dia alcanassem a doce felicidade
de amar e serem amadas.
       Claire ia colocar Felicity em sua "cesta" temporria, depois de lhe ter dado leite, quando Brad chegou. Viera mais cedo do que pensara e pelo monte de pacotes
que trazia ficou evidente que no esquecera da promessa.
       - J escolheu o nome dela? - perguntou, assim que entrou.
       -  Felicity, porque a vinda dela para esta casa me fez muito feliz.
       Ao contrrio da minha vinda, refletiu Brad, aborrecido. Percebia que Claire no se sentia  vontade com ele e culpava Irene, certo que ela pressionara a cunhada
para aceit-lo como hspede.
       Se a chegada de uma simples gatinha em sua vida tinha o poder de fazer Claire sorrir e seus olhos cintilarem de felicidade, como seria se encontrasse o homem
capaz de torn-la feliz? Se fosse ele esse homem...
       Mas no era, tratou de lembrar-se. E, pior, poderia ser o homem que a tornaria infeliz.
       A conversa com Tim fora bem mais difcil do que esperava, pois ele se mantivera muito na defensiva e se mostrara pessimista. Brad preferia uma situao em
que pudesse elogiar, em vez de criticar: isso costumava dar melhores resultados rapidamente e, melhor, aumentava os lucros, o que significava melhorar a folha de
pagamento. Em sua opinio, este era o mais eficiente incentivo que qualquer homem podia ter.
       - Hum... Que cheiro gostoso! - comentou, enquanto punha os pacotes na mesa da cozinha e observava Claire ajeitar a gata na caixa.
       -  pastelo de carne - esclareceu ela, erguendo o queixo com orgulho. - Talvez voc prefira torta de abbora e carne assada...
       Brad compreendeu o desafio e a determinao que erguiam o delicado queixo. Segurando o riso, respondeu srio:
       - Bem, no... Depende... Acredito que seria muito difcil, se no impossvel, voc fazer a torta de abbora e a carne assada que estou acostumado a comer.
       Os olhos dela fuzilaram, indignados. O que ele queria dizer? Que ela no era competente o bastante para fazer os preciosos pratos da cozinha da terra dele?
       Abriu a boca para retrucar, ento viu o brilho zombeteiro no olhar dele e se controlou:
       - Desenvolva... - incentivou-o, demonstrando que aceitava a brincadeira.
       O divertimento dele tornou-se aberto ao ver que ela o acompanhava. Estava ali uma coisa de que sentira falta enquanto seus irmos cresciam: algum com quem
partilhar ideias e sonhos maduros, risos e s vezes lgrimas diante de erros e decepes. Algum com quem partilhar a vida, algum que percebesse que ele estava
brincando. Algum como Claire...
       Rpido, colocou os pensamentos sob controle:
       - Veja, foi duro aguentar o aprendizado de minhas quatro irms na cozinha... Voc j comeu carne assada carbonizada?
       Eu j. Quatro vezes, com quatro principiantes, sem falar em muitos outros desastres culinrios.
       Claire riu com gosto, lembrando-se das primeiras experincias dela e d Sally ao fogo.
       - Oh, coitado de voc! - ficou sria por um instante, depois nao aguentou e voltou a rir.
       -  Pode caoar de mim - lamentou-se Brad. - Eu juro que me dou por feliz por no ter perdido os dentes... Este  o meu lado da histria - disse, suave. Ento,
acrescentou: - E o seu? O que voc tem contra a carne assada?
       Ele a pegara distrada, sem nenhuma desculpa preparada, o depois de hesitar um pouco, Claire confessou, sincera:
       -  Irene quer que eu faa pratos da sua terra para voc. Trouxe-me um livro de receitas americanas que emprestou de algum. Acha que isso o far sentir mais...
mais em casa.
       A certeza de Brad foi absoluta: Irene estava mais preocupada com o emprego do marido do que com o estmago dele. Mas no podia acus-la por isso, nada havia
de errado em ser uma esposa leal e dedicada.
       Olhou ao redor. Em cada detalhe daquela casa estavam claros a presena e o toque do homem a que pertencera. Se isso era to evidente para ele, quanto teriam
sido evidentes para Claire a presena e o toque da mulher que fora dona de tudo? Como ela pudera viver com esse peso? Imaginou. Como fora capaz de aguentar, sabendo
que o marido ainda amava a primeira esposa?
       Seria por isso que Claire havia se envolvido com outro homem? Nesse caso, no poderia conden-la.
       - Eu achei que podamos jantar aqui na cozinha, em vez de na sala de jantar - a sugesto dela era tmida, insegura. - Sally e eu sempre comamos aqui e...
       - Claro.  mais aconchegante comer na cozinha - assentiu ele, calmo. - Primeiro quero passar pelo chuveiro. Voc se importa? S vou demorar dez minutos, mas
se quiser que eu desa antes  s gritar.
       Claire comeou a pr a mesa, enquanto ele subia a escada. Ela e John jamais tinham rido juntos, nem tido momentos de humor. Ele no era esse tipo de homem.
Levava a vida muito a srio, provavelmente por causa da morte de Paula...
       Dar gargalhadas era uma delcia, mas Claire sentira-se esquisita, atordoada, uma cabea-oca, como diria sua tia-av, reprovadoramente. Ao pensar nisso, riu
de novo, sentindo-se leve e alegre como nunca.
       -  Eu gostaria que papai fosse mais divertido  -  queixara-se Sally, quando adolescente.
       E Claire a compreendera: sua enteada tinha excelente senso de humor.
       Seria gostoso dividir a intimidade com algum, concluiu, pensativa, enquanto tirava o pastelo do forno e ajeitava os legumes e verduras nas travessas. No
diziam que o riso era poderoso afrodisaco? Seu corao perdeu o ritmo por um instante e o calor do forno avermelhou-lhe o rosto.
       Quanto tempo Brad ainda demoraria para descer? Fazia mais de quinze minutos que ele subira e talvez fosse melhor ir cham-lo.
       Ao chegar no corredor, a porta do quarto principal encontrava-se aberta e entrou sem pensar. Notou os sapatos no cho, a camisa, cueca e meia sobre a cama,
a cala no encosto de uma cadeira. Roupas limpas... Significava que Brad no estava usando nenhum desses artigos.
       Engoliu em seco, com um leve incio de pnico ao ouvir a porta do banheiro abrir-se. Ele entrou no quarto antes que ela tivesse tempo de sair.
       - Desculpe minha demora.
       Brad falava e agia como se no estivesse apenas com uma toalha passada pela cintura e nem notou que Claire ficou apavorada quando ele ergueu as mos e passou-as
nos cabelos molhados. Mas a toalha no caiu.
       Ao contrrio de Claire, parecia acostumado a partilhar seu quarto com pessoas do outro sexo. Desde os primeiros dias de casados, John e ela haviam iniciado
uma rotina que garantia a ida de cada qual para a cama em momentos diferentes e com tempo suficiente para preparar-se a ss para deitar.
       Claire desconfiava que John partilhava o quarto com ela apenas por causa das convenes sociais e de Sally. Percebera que ele ficara aliviado quando, j bastante
doente, ela propusera mudar-se para outro quarto a fim de lhe dar sossego.
       Ainda estava paralisada junto ao umbral da porta do quarto, acompanhando com avidez cada movimento do corpo moreno, musculoso e quase nu. Ao perceber o que
fazia, ficou quase roxa de vergonha, voltou-se e saiu para o corredor.
       Quando adolescente, em parte pela criao e em parte pela propria natureza, ela custara a despertar sexualmente e mesmo depois de desperta seus sonhos de
olhos abertos eram romnticos, daqueles em que a mocinha encontra o amor de sua vida e se casa com ele.
       Jamais imaginara detalhes fsicos de um possvel amante e nunca, como as demais garotas, se derretera por ombros largos ou sentira atrao por ndegas, pernas
e braos masculinos musculosos.
       Tambm nunca pensara em homens, nem sequer em um homem, no sentido sexual. Por isso, enquanto Brad se movimentava calino e natural pelo quarto, ficara atordoada
ao apanhar-se imaginando-o sem a toalha que o cobria, vendo-o total e maravilhosamente nu.
       -  Estava uma delcia! - suspirou Brad, terminando de comer. - Irene disse que voc pode me apresentar em seu clube e conseguir que eu frequente a piscina
e o ginsio como convidado... Se continuar comendo deste jeito, vou precisar.
       Ele no era dos que precisam cuidar da forma, pensou ela, mas no tinha ideia como Brad vivia, se normalmente praticava exerccios.
       - Sou preguioso demais para seguir um programa de ginstica - contou ele, rindo. - Mas costumava passar muitas horas ao ar livre com as crianas, principalmente
no vero. amos para o lago  tarde, nos fins de semana, para nadar e velejar.
       - Lago? - Claire sentiu inveja.
       Sempre acalentara o sonho secreto de viver perto de gua. Desde criana sua verso do paraso era nadar e andar de barco, qualquer barco. Quando persuadira
John a alugar um veleiro grando para frias, fora um fracasso: no primeiro dia ele desistira de velejar e preferira ficar num hotel de luxo; Sally e ela haviam
ficado com ele e, afinal, tinham se divertido muito.
       - . Na cidade onde moro h uma represa imensa e muita gente a usa para recreao. Ns alugvamos um veleiro e...
       - Eu sempre quis aprender a velejar - disse Claire, num impulso.
       De imediato calou-se, sem jeito. No aprendera a falar nos prprios sonhos.
       - Pode aprender,  fcil.
       - No na minha idade - ela sacudiu a cabea.
       - Sua idade? - riu Brad. - Voc no tem mais de vinte e sete anos, se tanto!
       - Tenho trinta e quatro.
       Claire deu a informao com tranquilidade, mas lisonjeada por ele a julgar to jovem.
       - Por qu? Acha que quem passa dos vinte anos no pode sonhar? Engano seu, Claire. Quanto mais velho a gente fica, mais precisa dos sonhos.
       Brad calou-se e Claire soube que ele pensava em um sonho. Qual seria? Pensou curiosa.
       - Estou acabando de construir um barco - ele falava com ar sonhador. - Venho trabalhando nele h quatro anos.  um veleiro grande, com motor central, prprio
para o mar. Sempre disse a mim mesmo que quando as crianas crescessem eu iria fazer as coisas com que sempre sonhei. Assim que o barco ficasse pronto sairia nele
pelo mar, iria para onde a mar e o destino me levassem.
       - E por que no saiu? - quis saber ela.
       - Dois velhos espertos passaram a perna em mim... meus tios - respondeu ele, amargo. - Eu estava por dizer-lhes que me retirava da empresa quando me anunciaram
que iam se aposentar e parar de trabalhar. Ora, voc no quer saber dessas coisas.
       Quero, sim! Quero saber tudo de voc... A rapidez com que estas palavras se formaram na cabea de Claire lhe deram um choque. Felizmente, conseguiu ret-las.
       - E voc? Quais seus planos para o futuro? - perguntou Brad, querendo mudar de assunto.
       - Na verdade, no tenho planos - admitiu ela, relutante. - Trabalho na escola, mas...
       - Mas, o qu? - incentivou ele, ao ver que ela se calava.
       - Parece que vai fechar. Falta de fundos.
       - E a, o que voc pretende fazer? Claire deu de ombros:
       - No sei. Pode ser que arranje um outro trabalho como voluntria, mesmo que...
       - Mesmo que seja algo que voc no aprecie muito - Brad completou por ela. - O que gosta de fazer?
       -  De trabalhar com crianas. H algo to lindo na esperana, no despertar dos pequenos, at mesmo dos que...
       Calou-se, emocionada, e Brad comentou:
       - Voc gosta muito daquelas crianas.
       -  to fcil gostar delas - Claire sorriu, triste -, tm tanto amor para dar!
       Ela deveria ter seus prprios filhos, pensou Brad. Era uma mulher amorosa, maternal, no melhor sentido da palavra, e seu falecido marido tinha capacidade
para ter filhos. Ento, por que no os haviam tido?
       A conversa deles se tornara ntima demais, derivando para temas sobre os quais ela no queria falar. Claire ergueu-se, comeou a tirar a mesa, comentando
que era tarde e que ainda no tinham falado sobre a estada dele ali.
       Brad, ento, disse o que pretendia como atendimento, que era bem menos do que ela esperava, e o pagamento que ofereceu em troca foi to alto que Claire protestou.
Ele, ento, argumentou que alm de ceder-lhe o quarto, roupas de cama, de banho e cozinhar, ela teria que cuidar das roupas dele e acabou convencendo-a a concordar.
       Em sua caixa, a gatinha acordou e miou, reclamando de fome. Sorrindo, Claire pegou-a no colo.
       Ah, sim, ela era dona de um profundo instinto maternal, observou Brad ao ver a ternura com que lidava com o pequeno animal.
       O telefone tocou quando ele comeava a subir a escada. Claire atendeu e exclamou, contente:
       - Oi, amor! Como  bom ouvir sua voz! Eu no sabia que voc ia telefonar...
       Ele foi para o quarto, a fim de deix-la conversar sossegada com o amante, mas toda alegria daquela noite se apagou. Perguntou-se, irritado, o que tinha a
ver com aquilo. A ltima coisa que precisava era envolver-se emocionalmente, menos ainda com uma mulher que no podia corresponder aos seus sentimentos.
       - Voc est numa idade perigosa - dissera-lhe Mary-Beth, no Dia de Graas.
       Ele achara o comentrio divertido, mas agora indagava se ela no teria razo.
       L embaixo, Claire prevenia a enteada:
       - Vai pagar carssimo por este telefonema!
       - Pode crer - respondeu Sally, carinhosa. - No me assusta: voc me adianta mais um pouquinho...
       John fizera um testamento tendo Sally como nica herdeira, mas at completar vinte e cinco anos ela receberia apenas determinada quantia por ms. Deixara
a casa para Claire juntamente com o encargo de ser a tutora de Sally e de controlar o dinheiro enquanto ela no o recebesse. De vez em quando, a enteada lhe pedia
um pouco mais do que a mesada, o que j se tornara piada entre as duas.
       - No conte muito com isso! Os juros das aplicaes caram este ms.
       - Preciso desligar, meu bem, Chris est me esperando. Sally estalou uma poro de beijos ao telefone e quando desligou Claire sorria, enternecida. Sally querida,
sua vida teria sido to vazia e triste sem ela! Sua vida e seu casamento...
       Uma ponta de dor se fez presente no lugar mais secreto de seu corao e ela tratou de ignor-la. Felcity exigiu ateno com miados insistentes, o que a fez
suplantar a dor com atividade fsica. Alis, essa era uma tcnica que havia aperfeioado no decorrer dos anos.
       CAPITULO VI
       Brad no estava de bom humor. Passara a manh revisando os livros de contabilidade e verificara que o problema financeiro era mais grave do que imaginara.
       A melhor soluo seria cancelar a franquia, fechar a filial e absorver o prejuzo. Mas se fizesse isso...
       Como Claire reagiria se deixasse Tim desempregado? Ora, afinal, que lhe importava?
       Inclinou para trs o encosto da cadeira, fechou os olhos e tratou de considerar as opes.
       Se cortasse despesas e melhorasse as vendas haveria uma pequena chance de sobrevivncia da empresa. Mas para isso seria preciso exigir um brutal aumento de
trabalho e da dedicao dos empregados. E Tim no era o chefe adequado para isso, pelo que vira at o momento.
       Teria que contratar algum que soubesse motivar nos revendedores o entusiasmo que cativa os clientes e que os fizesse trabalhar com o dinamismo dos revendedores
americanos. Fez uma reviso mental do pessoal que trabalhava com eles e verificou que havia um ou dois que poderiam aprender a tcnica em tempo curto, mas ser que
Tim aceitaria algum acima dele?
       A firma precisava de um tipo diferente de contato com os clientes para sobreviver e dar resultado.
       Tim, o concunhado de Claire, o amante dela?
       Um suspiro cansado veio do fundo do peito de Brad.
       Na noite anterior, ouvira Claire subir pouco depois da onze horas; ainda estava trabalhando e quando parou passava da meia-noite.
       Imaginou se quando ela adormecia no quarto solitrio, na cama solitria, sonharia com o amante. Ser que ficava acordada pensando nele? Ser que...
       A porta do escritrio abriu-se e ele ficou tenso:
       - Entre, Tim, entre - disse, ao ver o gerente hesitar. - Quero, mesmo, falar com voc.
       -  Mas ele no disse que no precisa de voc - Claire procurou reanimar Tim.
       - No, mas  questo de tempo - afirmou ele, sombrio. Era impossvel no sentir pena! Tim chegara h cerca de meia hora, procurando por Brad, que sara da
empresa depois do almoo sem dizer onde ia, e desanimara quando Claire lhe dissera que ele no estava.
       Por mais que sentisse pena, ela nada podia fazer. Sua impresso era que Tim fora procur-la na esperana que Brad lhe tivesse falado a respeito dos planos
do futuro. De certo modo, estava contente por ele no ter falado: no trairia a confiana de Brad passando informaes.
       - As coisas mudaram muito! - Tim mostrava-se arrasado. - Precisamos ser competitivos, agressivos e estou velho demais para aprender essas coisas. S Deus
sabe se vou arranjar outro emprego, na minha idade...
       A gatinha comeou a miar e ele fez uma careta:
       - Ela vai destruir os seus mveis com as garras, Claire.
       - No vai, no - respondeu ela, calma. - Vou comprar um poste-de-arranhar para ela.
       - Sei... - Tim olhou em dvida para Felicity.
       Irene ficaria uma fera se ele aparecesse com um gatinho em casa. Mas sua mulher no tinha o corao mole de Claire.
       - Bom, acho que vou indo - resolveu, desanimado. -  capaz de Brad ter voltado para a firma.
       - Vou at l fora com voc - ofereceu ela.
       Tim parecia muito cansado, tenso, e seu rosto triste lembrava o de um ursinho de pelcia, pensou Claire, enquanto o acompanhava at o porto.
       -  Obrigado por aguentar minha choradeira - ele estava sem jeito.
       - No se deixe abater, Tim! - ela o abraou, penalizada.
       Ao aproximar-se da casa, Brad deu com Claire e Tim abraados. Diminuiu a marcha; eles separaram-se, Tim entrou no carro e ela ficou junto ao porto, olhando
at ele virar a esquina.
       Distrada, s percebeu a chegada de Brad quando ele bateu a porta do automvel.
       -  Oh, Brad! Por pouco voc no encontrou o Tim, ele...
       -  Sim, eu o vi - cortou ele, seco.
       Claire tentou perceber no rosto dele o que se passava. Ser que Tim estava certo, ia ser despedido? No havia como perguntar.
       - Voc quer falar com Tim? - indagou, hesitante.
       - Agora, no - foi a resposta brusca.
       Ele passou por ela e foi para a casa. Era uma atitude grosseira, que no combinava com ele. Uma das primeiras coisas que notara em Brad e que a tinham agradado
era justamente a boa educao, uma cortesia que podia ser definida como antiquada.
       - Alis, acho que at  bom eu no falar com ele agora - disse por cima do ombro, ao chegar  porta dos fundos.
       - Est zangado com ele? - afligiu-se Claire.
       - Zangado com ele! Bem,  um modo de dizer - assentiu Brad, cido, parando para ela entrar primeiro.
       - Eu sei... Ele est muito preocupado com o trabalho - Claire tropeava nas palavras, imaginando se no estaria errada metendo-se no caso. - Tim pode no
ser um homem ambicioso ou agressivo, mas...
       Hesitou, depois decidiu que devia fazer alguma coisa para ajudar o concunhado. Firmou a voz ao dizer:
       - Mas Tim  consciencioso e...
       -  evidente que voc o aprecia! - interrompeu-a Brad. O sarcasmo fez Claire sentir-se desajeitada, mas mesmo assim reagiu:
       -  Sei que no devo me meter no que no  da minha conta, mas...
       - Mas gostaria de saber quais meus planos para o futuro da filial britnica e, claro, para o futuro de Tim.  isso? - Antes que ela pudesse negar acrescentou,
spero: - Muito bem, vou lhe dizer. Como voc reconhece, Tim no  criativo e, aos olhos dos nossos vendedores e dos revendedores, sua falta de iniciativa mostra-se
como falta de confiana no em si prprio, mas no nosso produto. Acrescente a isso sua inabilidade em escolher para contatos e revendedores homens motivados, vibrantes,
e ver que no  de admirar que a filial esteja afundando!
       - Mesmo? Ento, por que no o despede e contrata outro representante? - desafiou Claire.
       Para sua surpresa, em vez de dizer que ela estava certa, Brad franziu a testa:
       - No pretendo fazer isso. - Como o olhar dela o interrogasse, explicou: - Acredito que Tim possa melhorar com um curso intensivo de tcnicas de direo ativa
e com um modelo que lhe mostre...
       - Como deve trabalhar - completou Claire, irnica.
       - No - Brad corrigiu-a com calma -, que lhe mostre como obter sucesso com uma atitude mais positiva. Na Amrica, temos no departamento de vendas um funcionrio
excelente que seria perfeito para isso, mas no sei se o convenceria a vir para a Inglaterra. Bem, voc no est interessada nos meus problemas, est? S se importa
com Tim e tem razo: afinal,  seu amante.
       - Amante? - ecoou Claire, assombrada.
       Antes que ela soubesse o que dizer, Brad indagou:
       - Quando o caso comeou? Depois da morte do seu marido ou antes?
       Caso! Brad pensava que ela estava de caso com Tim!
       - D para notar que seu casamento no foi feliz. Mas, que diabo, uma mulher como voc poderia ter encontrado um homem livre e no um...
       Claire o fitava de olhos arregalados, sem acreditar no que ouvia.
       - Voc no tem direito de fazer esse tipo de suposies a meu respeito - a voz dela soou abafada. - Nada sabe de mim, nem de meu casamento.
       Preferindo morrer a admitir que aquele comentrio sobre seu casamento era verdade, Claire sentiu-se ferida, mas no pelo que Brad imaginava.
       - Eu jamais teria um caso! - Ela falava com apaixonada sinceridade. - Nunca. No posso.
       A veemncia dela aumentou a fria de Brad. No adiantava Claire negar, era evidente! Mas, se tinha que ter um caso, por que no escolhera um homem mais...
mais eficiente do que o concunhado, que era um perdedor?
       - No pode? - provocou, agressivo. - Ora, pare com isso! Voc  uma mulher adulta, madura, viva. Seu corpo sabe o que  o desejo, o que  sexo, o que ...
       - Nao! - O grito doloroso mal passou pelos lbios trmulos de Claire. - No. No sei nada! Eu no poderia, eu nunca...
       O sofrimento na voz dela fez com que Brad a olhasse com ateno. Claire estava apavorada, com os olhos muito abertos, a voz presa na garganta.
       - O que foi? - perguntou, incerto. - O que est querendo dizer?
       -  Nada.
       Ela voltou-lhe as costas, saiu andando, mas ele a alcanou e segurou-a por um brao:
       -  Nada disso! No vai escapar assim. Voc nunca pde, nunca o qu?
       Claire tremia, mas Brad no lhe largou o brao quando tentou livrar-se. Sem conseguir olh-lo, ela soube que ele no a largaria enquanto no dissesse a verdade.
Fechou os olhos e lutou contra a onda de pnico que a ameaava. Como aquilo fora acontecer? Como se deixara levar quela situao, como uma boba?
       Quando criana, aprendera que o modo mais fcil de escapar da ira da tia-av era respirar fundo e submeter-se ao castigo, como quando engolia o remdio amargo
de um s gole para que a tortura terminasse logo.
       - Eu nunca pude ter um amante, nunca fiz amor com ningum.
       Sua atitude era digna e procurava ignorar a fragilidade da voz, o fato de que seu rosto, seu corpo, toda ela ardia de humilhao enquanto confessava a verdade
que ele no tinha direito de obrig-la a revelar.
       - John... Nosso casamento... John casou-se comigo porque queria algum para criar Sally. Eu sabia. Ele me disse que jamais amaria outra mulher como amara
Paula, mas que precisava dar  filha algum que substitusse a me.
       - E voc aceitou isso?
       Havia algo que Brad no entendia. Ser que Claire amava o marido e aceitara a situao na esperana que ele se apaixonasse por ela? Ao imaginar isso o corao
dele apertou-se de piedade e raiva ao mesmo tempo.
       - Sim - confirmou Claire.
       -  Mas por qu? - Ele no se conformava. - Por que se casou com esse homem sabendo que ele no a amava? Um homem que nunca foi um verdadeiro marido para voc,
que nunca lhe deu filhos, nunca lhe ofereceu o prazer de uma completa realizao sexual e emocional?
       - No me importei por John me querer apenas como madrasta de Sally porque no queria ter sexo com ele, nem com ningum.
       Por instantes, os dois ficaram se encarando.
       - Voc no queria ter sexo com ningum - repetiu Brad. Alguma coisa lhe escapava. Claire no o rejeitara quando a beijara: ficara surpresa, chocada, mas tambm
se excitara. Pensou com o maior cuidado para no deixar que as prprias emoes mascarassem as dela. No conseguia continuar encarando-a; desviou o olhar e soltou-lhe
o brao, sem saber o que dizer ou fazer. Tornou a olh-la e percebeu que Claire continha as lgrimas.
       - Oh, diabo! Venha c - murmurou roucamente. Abraou-a com desajeitada ternura, embalando-a, como se quisesse confort-la, dar-lhe segurana.
       -  Est tudo bem, tudo bem... - falou baixinho, entre os cabelos dela. - Fui um idiota magoando voc. Eu no devia ter dito o que disse. Esquea. - Sentiu
o corpo frgil enrijecer, enquanto ela continha o choro. - Conte-me tudo, Claire, desabafe.
       - No posso - soluou ela. - No posso...
       -  Pode, sim... Seja o que for, voc pode me contar. Brad falava com ela do modo que falara com as irms e o irmo ao consol-los das mgoas infantis e juvenis.
S que Claire no era criana, nem adolescente: o corpo dele comprovava isso, reagindo  proximidade dela. Felizmente, ela se encontrava transtornada pelas prprias
emoes e no percebeu o despertar do sexo de Brad.
       - Conte-me - insistiu ele, com carinho. - No vou solt-la se no me contar.
       - Morvamos juntos - comeou Claire, relutante - eu, duas colegas e um colega. Estvamos no ltimo ano da faculdade. Eu tinha sado de casa naquele ano. Acho
que era muito ingnua. Minha tia-av sempre foi muito severa, distante, e eu no tinha experincia, no sabia...
       Claire calou-se, controlou o choro, a respirao, ento prosseguiu:
       - Ele... ele entrou no meu quarto. Disse que seu aquecedor parara de funcionar e que no tinha mais dinheiro. Era inverno, estava muito frio. Ele perguntou
se podia ficar estudando no meu quarto. Eu tinha acabado de tomar banho, j estava de camisola, com o roupo por cima. Eu no sabia, no tinha idia...
        Ela mordeu os lbios, no esforo de se controlar:
       - Pouco depois, fui at a estante pegar um livro. Quando percebi, ele estava atrs de mim... me abraou...
       Os olhos dela escureceram ao recordar:
       - No comeo, fiquei surpreendida demais para entender o que acontecia. Pensei que... Pedi que me soltasse e ele riu. Ento, comeou a... comeou...
       De novo ela se interrompeu e engoliu seco:
       - Comeou a beijar meu pescoo... eu no queria. Quis fugir, mas ele me segurou, comeou a tirar meu roupo...
       A voz de Claire faltou e Brad abraou-a com mais fora:
       - Tudo bem - disse, suave. - V com calma.
       - Creio que voc pode imaginar o resto. Meu colega achou que eu estava querendo... querendo fazer sexo com ele e quando recusei ficou furioso. Me xingou,
disse uma poro de coisas pesadas. Pensei que fosse me violentar.
       A respirao de Claire se tornara to difcil que ela no pde continuar. Depois de alguns momentos, recuperou-se:
       - Lutei com ele e consegui me soltar, nem sei como. Sa correndo do quarto, da casa. Chovia... corri muito, escorreguei, ca. John me viu. Ele ia indo para
casa. Parou o carro e desceu para me ajudar. Eu estava histrica...
       Brad lembrou-se da noite de chuva, quando a seguira e se amaldioou por t-lo feito.
       - Conseguiu me acalmar e me fez contar o que acontecera. -  Claire se acalmara. - Levou-me para a casa dele e passei a noite l. John era bom, atencioso,
e me senti segura. Foi fcil gostar dele e de Sally, que por acaso estudava na escola onde eu estagiava. John no me assustava, no dava a sensao que ia me atacar.
- Ela suspirou. - Voc deve achar que sou idiota, uma boba, para ter tanto medo e achar que todos os homens s pensam em... Mas  que nunca tive amizade com meninos
e rapazes, minha tia-av... Sexualmente eu...
       Ela se atrapalhava na ansiedade de encontrar palavras. Continuou, confusa:
       - Eu no... H gente que no... John no querer consumar nosso casamento no foi problema para mim e antes que voc faa mais acusaes - ela se tornou firme
-, jamais fui tentada a quebrar o voto de fidelidade que fiz ao me casar com ele. No me importa se voc pensa que sou covarde e...
       - Nada disso - interrompeu-a Brad. - Ao contrrio: acho voc muito corajosa pelo que enfrentou e por me contar tudo.
       Incerta, Claire inclinou a cabea para trs e fitou-o. Brad no podia dizer-lhe o que pensava de John, do homem que ela considerava um santo, mas que na opinio
dele havia sido um egosta ao tirar vantagem da ingenuidade e insegurana dela, prendendo-a num casamento que a impedira de viver.
       - Quantos anos voc tinha quando se casou com John, Claire?
       - Vinte e dois.
       Vinte e dois! O corao de Brad doeu por ela.
       - No me olhe desse jeito! - reagiu Claire. - No admito piedade. Eu quis me casar com John, eu quis...
       - Negar sua sexualidade, eu sei - assentiu Brad.
       - H gente, h mulheres que no tm motivao sexual - defendeu-se Claire.
       - De fato, h homens e mulheres que no so sensuais - concordou Brad -, mas voc no  uma delas.
       Ela fitou-o com os olhos redondos, o rosto levemente corado:
       - Como pode afirmar Isso? Voc no sabe...
       - Sei, sim. Sei, por causa disto.
       Antes que ela pudesse sequer pensar, Brad abraou-a mais apertado, segurou-lhe a cabea com uma das mos, colocou suavemente a boca sobre a dela, apenas tocando-a,
acariciando-a, at que Claire instintivamente pressionou os lbios contra os dele, aprofundando o beijo; seus corpos colaram-se e ela-teve impresso que derretia
de prazer.
       Como pudera acreditar que no queria "aquilo"? Perguntava-se, maravilhada por no ter medo e nem vergonha de estar beijando Brad.
       Era como tirar os culos escuros e ficar ofuscada pelo esplendor do sol, comparou eufrica por conseguir liberar os sentidos.
       A respirao pesada de Brad, o cheiro de sua pele, o calor de seu corpo... Claire absorvia tudo isso como uma sensual descoberta, a boca entregue  dele,
obedecendo  exigncia da lngua ardente e abrindo-se para receb-la com deliciado ardor.
       Sentiu a firmeza do peito de Brad contra os seios quando ele comeou a respirar profundamente. As roupas que impediam suas peles de se tocarem aumentava o
erotismo da situao.
       Claire percebeu a excitao nos seios, que se tornaram maiores e duros, nos mamilos rijos e salientes, enfim no corpu inteiro. E pde sentir a excitao dele.
       Da outra vez, com o colega, o sexo masculino enrijecido e enorme tinha lhe despertado repulsa; com Brad, era uma sensao maravilhosa, de orgulho pelo poder
de provocar seu desejo.
       A descoberta da prpria sensualidade era como sorver um poderoso afrodisaco: estava embriagada pelo desejo que sentia e que despertava. Como num sonho, entregava-se
ao prazer e procurava intensific-lo esfregando, instintivamente, o corpo contra o de Brad, abrindo os olhos para mergulhar seu olhar no dele. Sua expresso era
de um erotismo to profundo que Brad teve o impulso de possu-la ali mesmo. Ento, lutou para se controlar, dizendo-se que Claire no sabia o que estava fazendo.
Tinha certeza de que ela no imaginava o que provocava em si mesma e nele.
       Claro que ela sabia que Brad estava excitado, mas no podia imaginar at que ponto e nem como aquela situao era desconhecida para ele. No podia saber que
o desejo que despertava nele era novo e exigente. Fitava-o, com a boca colada  dele, mordendo-lhe de leve o lbio inferior, sem desconfiar da tortura que lhe infligia
e como era duro para ele se controlar. Brad imaginou se deveria dizer-lhe quanto estava perto de usar a mesa da cozinha dela da maneira mais primitiva e sensual
que conhecia. No entanto, sabia que fazer amor apenas uma vez no iria bastar para nenhum dos dois, pelo modo que ambos se sentiam. Uma vez, duas, trs... no iriam
bastar.
       Tentou abafar os gemidos que os movimentos erticos do ventre de Claire contra o dele provocavam e, nesse momento, viu o relgio na parede. Praguejou mentalmente.
A empresa ficava a vinte minutos de carro dali e tinha hora marcada com um cliente em potencial dali a meia hora.
       - Claire - murmurou, com remorso ao ver que o olhar dela se nublava. - Claire, preciso ir.
       - No... - gemeu ela, em protesto.
       De sbito, percebeu o que fazia, o que dizia e que se comportava de um modo terrvel. Corando, separou-se dele, incapaz de olh-lo enquanto Brad explicava
que tinha um compromisso na firma, mas que voltaria o mais depressa possvel.
       - No era preciso voc fazer o que fez - a voz dela estava abafada, insegura. - Sei que tem pena de mim.
       Brad ficou furioso ao perceber o que ela pensava: achava que ele a beijara por piedade.
       -  Claire, eu...
       - Acredito que isto seja uma interessante aventura para um homem como voc, que tenho o valor de uma curiosidade a seus olhos. Afinal, hoje em dia, so poucas
as mulheres com trinta e quatro anos que ainda no... que nunca...
       - No fale assim, Claire! - implorou ele. - Est enganada. No ...
       -  um bom tema para cinema e teatro, no? Virgens de meia-idade, reprimidas, secas, fossilizadas e...
       Brad percebia as lgrimas que Claire no libertava e quis abra-la, mas ela recuou e seus olhos brilharam com uma raiva selvagem, que o avisava para no
se aproximar.
       - A culpa de tudo foi minha. - Nunca ela se sentira to amarga. - No devia ter dado ouvidos a Irene e hospedado voc aqui. Eu no...
       Calou-se bruscamente e Brad soube o que ela ia dizer.
       - Voc no me queria aqui - esclareceu, frio.
       - Por que vocs no me deixam em paz, no me deixam levar a minha vida? - desesperou-se Claire. - Voc, Irene e at Sally, com aquela brincadeira idiota de
jogar o buque de noiva! Como se algum ainda acreditasse nessa superstio ridcula.
       - Que superstio? - Brad ficou curioso.
       - Uma que afirma que a moa que pegar o buque da noiva se casa a seguir! Sally deu um jeito para que suas damas-de-honra e eu o pegssemos, quando o jogou.
E mencionou isso no carto-postal que me mandou.
       O carto-postal. De repente, Brad compreendeu. Ento, era a isso que Sally se referia ao dizer que Claire no devia dividir seu homem com ningum. Riu, contente,
e reiterou:
       - Olhe, preciso mesmo ir, mas volto logo e quando voltar nem pense em fugir de mim.
       Aproximou-se, tocou-lhe os lbios corn as pontas dos dedos, gentilmente, antes que ela pudesse impedir:
       - Aquilo foi s o comeo... - avisou, indo para a porta. Claire ficou paralisada pela sensao que aquele suave toque provocou em seu corpo. Quis dizer que
ele estava errado, que no queria continuar o que quer que fosse que ele havia comeado, mas sua voz no saiu.
       O miado lamentoso de Felicity interrompeu o pesado silncio da cozinha. Claire pegou-a no colo, acariciou-a, comeou a dar-lhe leite e a gatinha aceitou,
ronronando satisfeita.
       Continuava atordoada, no apenas pela intimidade fsica que haviam partilhado, mas tambm por ter contado seu passado a ele. E o que tinha acontecido depois...
O que significava aquele seu sonho ertico com Brad, na noite anterior?
       A gatinha miou, reclamando e Claire viu que o conta-gotas esvaziara. Encheu-o de leite outra vez e sorriu da gula com que Felicity segurou a mo dela com
as patinhas e sugou.
       Sally lhe dissera que pretendia esperar at os trinta anos para ter filhos e estava com vinte e cinco. Isso significava que teria que esperar muito para ser
av, pensou Claire.
       Av... Um sorriso triste desenhou-se em seus lbios e admitiu quanto sempre quisera, secretamente, ter filhos; no entanto, Sally continuaria a ser sua filha
mais velha e especialmente querida.
       No era tarde,  claro. Mulheres de sua idade e at mais velhas tinham bebs, muitas at sem o apoio de um marido ou companheiro. Tinha sentimentos confusos
a respeito de filhos, porm sabia que se um dia viesse a ficar grvida sem querer teria o filho de qualquer maneira e o amaria muito.
       Quando percebeu o caminho de seus pensamentos, tratou de pensar apenas em amamentar Felicity.
       Isso nunca iria acontecer, garantiu, definitiva. Comeou a chover, o vento fustigando os galhos das rvores e sacudindo as janelas.
       Ouvira a previso do tempo: haveria tempestade pesada e ventos muito fortes. Recolocou Felicity na cesta acolchoada que Brad comprara e olhou o tempo feio
pela janela.
       CAPTULO VII
       Brad soltou uma exclamao de raiva ao perceber que um dos pneus do carro esvaziara. Praguejando, parou, olhou ao redor e nada viu alm da rua deserta e a
chuva pesada. Eram quase seis horas da tarde, mas o cu estava escuro como se j fosse noite.
       Encontrava-se num bairro de periferia, uma rea ainda desolada que fora designada como nova zona industrial. Havia pouqussimas construes no amplo loteamento
e a maioria das ruas ainda era de terra, que a chuva ameaava transformar em lama.
       O cliente daquela tarde mencionara o novo loteamento, dizendo que pensava instalar ar-condcionado na enorme fbrica que estava construindo l. At essa conversa,
Brad no tivera ideia de que sua empresa se encontrava em um valioso local. A cidade se expandira depois de eles terem construdo a fbrica no terreno adjacente
 casa do ex-proprietrio e ela acabara encravada num bairro residencial.
       O cliente dissera que tinha um amigo, dono de uma construtora, que certamente compraria aquela enorme propriedade para construir um conjunto de prdios de
apartamentos.
       Depois que ele tinha ido embora, Brad informara-se: o novo ncleo industrial tinha construtora prpria e, se vendesse a atual fbrica, com o que recebesse
poderia comprar um terreno, construir uma fbrica e ficar com um bom dinheiro.
       Num impulso, resolvera ir ver o ncleo comercial. No era muito longe e voltaria logo... se o maldito pneu no tivesse furado.
       Chovia torrencialmente, mas no tinha jeito: o negcio era sair e trocar o pneu. Tirou o palet e abriu a porta do carro.
       Dez minutos depois estava com os cabelos escorrendo, a roupa ensopada e tudo que fizera fora pegar o estepe e o macaco do porta-malas. A rua de terra em que
se encontrava virava rapidamente um lamaal e foi um problema firmar o macaco. Desistiu meia hora depois, todo molhado e suando pelos esforos feitos para desapertar
os parafusos da roda. Guardou o estepe, o macaco, entrou no carro e dirigiu-o com o pneu furado, mesmo, at o primeiro telefone que encontrou e ligou para a empresa
da qual alugara o automvel.
       Uma hora e meia depois, atravs da chuva que continuava a cair firme, Brad divisou as luzes do carro-guincho. Tremendo de frio, saiu do carro para falar com
o mecnico, que disse, preocupado:
       -  melhor o senhor deixar isso comigo... Entre no carro, acho que vai pegar um bom resfriado.
       O homem borrifou leo nos parafusos teimosos e comeou a trabalhar. Passou-se mais de uma hora at o pneu estar trocado.
       Agradecendo ao mecnico, Brad ligou o motor e ps o automvel em movimento.
       Preocupada, Claire olhou o relgio da cozinha. Onde andaria Brad? Assumira que ele voltaria a tempo de jantar, mas passava das nove.
       Ao ver que ele no chegava na hora esperada, Claire tivera a tentao de ligar para a empresa, mas lembrara-se que Brad era apenas seu hspede, que no havia
entre eles um relacionamento profundo, que, alis, ela queria que houvesse. E ali estava a confirmao que ele no pretendia prosseguir o que comeara naquela tarde;
se quisesse teria voltado h muito tempo.
       "Nem pense em fugir de mim...", ele dissera. Mas podia ter sido pela emoo, que no o deixava pensar direito.
       Lembrou-se de um livro sobre jardins eduardianos; ia sentar-se na sala com uma xcara de chocolate bem quente e dar uma espiada nele, decidiu. Nem bem tinha
sentado quando percebeu o carro de Brad chegando. Hesitou: devia ir receb-lo?
       Bem, pensou, pelo menos ia perguntar-lhe se queria comer. No tinha ideia como tratar um hspede pagante, qual era o limite entre ateno e intruso.
       Estaava na hora de dar leite a Felicity lembrou-se, e se no o fizesse Brad poderia pensar que...
       O qu? Perguntou-se acidamente. Que ela estava com medo, com vergonha? Pois bem, estava com isso e muito mais!
       Engoliu seco e lembrou-se que, no importa o que sentisse, era sua obrigao ser bem-educada com o hspede.
       Irene diria poucas e boas se soubesse o que acontecera entre eles...
       Ergueu-se, decidida, ento ouviu Brad entrar no hall e espirrar. Abriu a porta e levou um susto ao v-lo todo molhado e sujo de barro.
       - Brad, o que...
       - Nada - respondeu ele. - Furou um pneu, tentei troc-lo e no consegui... - Deu uma srie de espirros. - Tive que esperar socorro. Pensei em avis-la, mas
no sabia quanto tempo ia demorar.
       - Est gelado! - preocupou-se ela. - Suba e tome um banho bem quente. Vou fazer um ch e ver alguma coisa para voc comer.
       Ser que tinha algum remdio para resfriado? Perguntou-se enquanto ele subia a escada, entre espirros.
       Ps gua para ferver e foi procurar no armarinho de remdios. Encontrou algumas aspirinas; Sally sempre tomava aspirina quando se resfriava.
       Fez o ch, serviu numa xcara e acrescentou um pouco de conhaque. A porta do quarto de Brad estava aberta quando subiu com o ch, mas lembrando-se do que
acontecera da outra vez ela parou e bateu.
       O rouco "entre" confirmou a suspeita sobre a sade dele.
       - Eu lhe trouxe ch com um pouco de conhaque - disse, entrando.
       - timo, obrigado.
       Ele se achava sentado na beira da cama, de roupo, o rosto avermelhado, e um brilho febril nos olhos.
       - Acho que voc est com febre - comentou, preocupada.
       - Tambm acho - concordou ele.
       Sentia-se mal. Na infncia, tinha inflamaes pulmonares quando se expunha ao frio ou ficava com gripe, mas com o tempo isso no mais acontecera, at aquele
momento. Reconhecia os sintomas que o haviam maltratado quando menino.
       - Voc precisa se alimentar, mas acho que no deve sair do quarto e...
       - Estou bem - interrompeu Brad, corajoso. - O seu ch e uma boa noite de sono resolvero tudo.
       - Posso preparar uma omelete.
       Ele fez que no e falou, com dificuldade:
       - No vou conseguir comer. Minha garganta est doendo, arranhando...
       - Vou trazer-lhe uma aspirina.
       - No - recusou Brad -, sou alrgico a aspirina. Fique tranquila, eu saro logo.
       A aflio nos olhos dela deu-lhe vontade de exagerar o que sentia. Se no estivesse to mal, saberia o que fazer com toda aquela ternura de Claire.
       Teve um arrepio de frio, comeou a espirrar de novo e ela aconselhou-o a deitar-se.
       - No posso - respondeu ele.
       - No pode? Por qu?
       - Para me deitar tenho que tirar o roupo e... - Brad calou-se, com um olhar malicioso apesar da febre.
       Os olhos de Claire no conseguiam desviar-se do V que o roupo branco formava no peito dele, realando a pele morena, os plos negros, crespos. De sbito
caiu em si: Brad estava nu sob o roupo. Corou, sem jeito, enquanto ele sentia o impulso de pux-la, abra-la e...
       Pare com isso! Avisou a si mesmo ao perceber que se excitava. Havia coisas que nem uma febril infeco pulmonar conseguia evitar, zombou de si mesmo.
       - Acho que vou descer. - Ela hesitou: - Pensei que uma bolsa de gua quente...
       Calou-se chamando-se de boba, dizendo que ele no era criana.
       - Uma bolsa de gua quente - Brad fechou os olhos e suspirou. - Acho que no h nada no mundo que eu queira mais.
       Havia sim, disse a si mesmo enquanto Claire saa do quarto. Havia algo que queria muito, mais do que a vida at.
       Quando ela voltou encontrou-o deitado, respirando pesado. Ao parar junto da cama e dar-lhe a bolsa de gua quente para aquecer os ps, sentiu o calor que
o corpo dele emanava.
       - Quer que chame um mdico, Brad? Sua respirao esta to difcil!
       - No precisa. No estou to mal quanto parece - garantiu ele.
       - Tem certeza? - duvidou ela. Tenho, sim. Fico bom com uma noite de sono.
       Depois que Claire saiu do quarto, relaxou o corpo que contrara para evitar que ela visse que tinha um arrepio aps outro.
       Ao sair do banheiro, Claire lembrou-se que no tinha trancado a porta dos fundos. Vestiu o roupo sobre o corpo ainda umido e desceu, antes que esquecesse
de novo.
       Quando voltava, ouviu um grito no quarto de Brad. Correu para l. O abajur de cabeceira estava aceso e sobre a mesinha havia um copo com gua, que ele devia
ter pegado no banheiro. Deitado de lado, de costas para ela, dizia palavras incompreensveis, com a voz rouca. Chamou-o, mas ele no respondeu. Ento, tocou-lhe
de leve o ombro nu e sobressaltou-se quando um acesso de tosse sacudiu-o todo. Ele voltou-se falando mais alto e dessa vez ela entendeu algumas palavras: - No...
no... No pode ser verdade... Papai... Brad falava dormindo, num sono inquieto, febril. Ser que era um pesadelo com o pai e a me, provocado pela febre?
       Quando Brad se voltara na cama as cobertas tinham deslizado e deixado  mostra o peito moreno, musculoso, mas Claire no teve qualquer reao ertica. Estava
aflita com o suor e o calor doentio. Notou, mais preocupada ainda, que ele comeava a tremer com violncia, enquanto outro acesso de tosse ameaava sufoc-lo.
       Numa reao automtica, cobriu-o de novo, falando com ele do mesmo jeito que falava com Sally quando ela ficava doente. A febre era bem alta e arrependeu-se
por no ter chamado um mdico. Ajeitou as cobertas e sem querer seus dedos esbarraram nele; assustou-se com a quentura da pele, apesar de molhada de suor.
       Ele recomeara a falar de maneira confusa e angustiada.
       - Est tudo bem, Brad... - disse ela, suave. - Tudo bem.
       - Claire...
       Os olhos dele abriram-se e fixaram-se nela, que no pde desviar o olhar, por mas que tentasse.
       - Claire - repetiu a voz rouca, baixa. - Voc est aqui, mesmo... Pensei que fosse um sonho... Venha mais perto.
       - No Brad, voc...
       Com surpreendente rapidez e fora, um brao dele envolveu-lhe a cintura e puxou-a, obrigando-a a sentar-se na beira da cama.
       - Pensei que fosse um sonho - murmurou passando a mo pelo rosto dela -, mas no . Voc est aqui,  real...
       Claire sabia que devia dizer algo, fazer algo, mas no podia e no reagiu quando ele a puxou para si, depois beijou-a com tanta ternura que o corpo dela doeu
pelo desejo.
       No era um ataque egosta, brutal e lascivo, provocado por simples luxria, sem qualquer emoo e sem reconhec-la como uma mulher sensvel, com sentimento
prprio. Era o beijo de um homem que compreendia; mesmo desejando Claire, ele se importava com a sensibilidade, com os anseios dela.
       Um leve tremor apoderou-se de seu corpo quando Brad emoldurou-lhe o rosto com ambas as mos e beijou-lhe os lbios de leve, acariciando-os com os dele at
que os sentiu midos e ansiosos por seus beijos. Sem perceber que o fazia, ela aproximou-se mais e entreabriu a boca; os dedos dele tocavam a pele sensvel junto
aos ouvidos. De sbito, os lbios de Brad separaram-se dos dela e ele recuou para fit-la. Em seguida, beijou-a com profunda paixo. Claire abraou-o, com o corpo
em chamas, desejando-o tanto que chegava a doer. Correspondia aos beijos dele, gemendo baixinho.
       Como se estivesse em transe, sentiu que ele abaixava o roupo at sua cintura e corou ao ver que acariciava com o olhar seus ombros delicados, os pequenos
seios redondos, os mamilos duros e erectos.
       Homem nenhum a vira nua, at ento. Ele a fitava encantado, com profunda aprovao e tanto erotismo cintilando no olhar que ela arqueou o corpo de leve e
entreabriu os lbios, numa demonstrao do muito que o queria. Era delicioso saber que Brad a desejava e que era capaz de faz-la realizar-se como mulher.
       Era uma densa, afrodisaca e poderosa mistura de novas emoes para uma mulher que tivera a sexualidade sufocada pelo medo e pela insegurana.
       No tinha a menor vergonha diante do olhar de fogo de Brad. Ao contrrio, sentia-se orgulhosa e gostava de ver o despertar da masculinidade dele  medida
que o desejo aumentava.
       A maneira ardente com que ele olhava seus lbios, os seios, despertava mais o corpo dela para o amor, O sexo grande, rijo e ardente que Claire sentia contra
a perna apesar das cobertas que os separavam dava-lhe uma sensao de euforia; Brad a desejava tanto que gemia de desejo.
       Levada pelo instinto, recuou um pouco a cabea e acompanhou o desenho da boca de Brad com a ponta da lngua, apoiando-se na cama, uma das mos instintivamente
entre as coxas dele.
       Claire nunca se imaginara capaz de fazer uma coisas dessas e, menos ainda, que sentiria tanto prazer ao faz-lo.
       O motivo que a levara ao quarto de Brad fora esquecido: os beijos suaves, mas profundamente sensuais, tinham se encarregado disso. E no era apenas a boca
de Claire que se tornara mais sensvel e desperta; sua mente, emoes, sentidos e o corpo inteiro correspondiam a cada toque, antecipando um gozo ainda desconhecido.
       Era como se estivesse envolta em uma nuvem de prazer emocional e fsico, uma sensao ao mesmo tempo to elusiva e intensa que no admitia ser analisada,
mas simplesmente saboreada.
       O rouco gemido que Brad emitiu quando ela comeou a acariciar-lhe os lbios com a lngua despertou em Claire uma sensao to deliciosa que os olhos dela
se entrecerraram, como os de uma gata, e as chamas do desejo irromperam, violentas.
       Ele passou uma das mos no pescoo dela, transmitindo-lhe o fogo que o consumia. Claire sentiu os seios endurecerem mais e num cantinho de sua mente o mnimo
de conscincia que restava ficou ultrajado com o orgulho e autoconfiana que ela sentia ao provocar aquelas reaes em Brad.
       O corpo esguio arqueou-se em provocante sensualidade, mostrando o que suas carcias faziam com ela; imitou, ento, o gesto dele, segurando-lhe o rosto com
ambas as mos e mantendo seus corpos ligeiramente separados enquanto o beijava. Tinha maravilhosa sensao de fora ao v-lo alucinado para possu-la, mas obrigando-se
a no ignorar a tcita negativa dela em se entregar totalmente. Por outro lado, era enorme sua tentao em faz-lo ir adiante; queria provar a si mesma que o desejo
dele era to imperioso quanto o dela.
       Parou de beij-lo e o gemido de doloroso protesto de Brad transmitiu uma espcie de eletricidade  espinha de Claire. Ele reassumiu o controle: inverteu as
posies e ela viu-se deitada de costas na cama, enquanto ele a beijava sequiosamente, a lngua invadindo-lhe a boca, apertando-se tanto sobre eIa que os bicos dos
seios doeram, esmagados contra o peito msculo.
       Confusamente, Claire compreendeu que desejava colar-se a ele e esfregar-se nele como uma gata lbrica; queria sentir o calor da carne de Brad colada  sua,
o roar torturante dos msculos rijos contra os seios, queria...
       Soltou um gritinho de surpresa quando Brad mordiscou-lhe o lbio inferior; as mos dele desceram por seus braos at os pulsos e os ergueram, depois, com
uma das mos, ele segurou-os acima da cabea dela.
       Um tremor percorreu-a inteira, eletrizando principalmente o ventre e os seios, quando percebeu o que Brad estava por fazer. O calor intenso que sentia no
baixo-ventre era novo, no entanto parecia-lhe conhec-lo h sculos. Teve certeza que algo em sua mente e em seu corpo havia despertado para a vida adulta.
       No sentiu medo, nem constrangimento; no houve qualquer impresso de ameaa. Existia apenas uma intensa, profunda necessidade de maiores descobertas da sua
libido e deliciava-se as iniciativas de Brad. Uma sensao dolorosa de to boa tomou conta dela quando abriu os olhos e fitou Brad, que acariciava com os lbios
a pele sensvel de seu pescoo; depois comeou a descer, muito devagar.
       Teve impresso que passou uma eternidade at a boca de Brad chegar ao primeiro destino. Antes que ela gritasse de ansiedade, ele lambeu um mamilo, gentil
e lentamente.
       Incapaz de se conter, Claire ouvia a si mesma gemendo alto, sentia o corpo inteiro tremer. A reao profundamente sensual fez com que Brad largasse seus pulsos,
a abraasse com fora e perdesse o controle da prpria boca, que passou a sugar os seios, um de cada vez, com sensualidade to violenta que ela no pde impedir
seu corpo de se mexer, se colar ao dele, sensualmente.
       A boca de Brad desceu, faminta e ardente, at o umbigo. Acariciou-o com a lngua, segurando os quadris dela com ambas as mos e erguendo-a de encontro ao
rosto. Por fim, soltou-a, livrou-a do roupo e ajoelhou-se sobre ela, uma perna de cada lado de seu corpo. Com sensual deliberao, acariciou a parte interna das
coxas macias e Claire respondeu de imediato, separando-as, sem timidez nem pudor.
       As mos dele tremiam ao toc-la, enquanto endireitava o corpo e olhava, com desejo feroz, para o suave tringulo de plos sedosos, crespos, que mal cobriam
o sexo de Claire. O corao dela bateu enlouquecido, enquanto seu corpo implorava pelo dele. Viu os olhos cinza escurecerem de lubricidade enquanto acariciava de
leve o tringulo de plos, depois a mo dele introduziu-se com suavidade entre os macios lbios do sexo, que pulsou, demonstrando quanto ela precisava dele.
       Brad comeou a inclinar-se quando Claire pediu, com voz tremula:
       - No... espere...
       - O que foi? - gemeu Brad. - No vou fazer nada que voc no queira, Claire.
       Ela sacudiu a cabea e murmurou:
       - No... No  isso. - As mos dela acariciaram o ventre musculoso dele. - Quero ver voc... Quero olhar...
       Por instantes Claire pensou que Brad no havia entendido, mas seus olhos se encontraram e ela soube que ele entendera, ao mesmo tempo que viu o efeito de
seu pedido: Brad ficara ainda mais excitado.
       Em silncio, ele deitou-se ao lado dela, de costas, e deixou-a admir-lo. O corpo moreno, forte, tremia de leve e Brad a fitava enquanto ela olhava seu sexo
ereto, firme, ansioso por ela.
       O nervosismo dele despertou uma ternura muito feminina em Claire; sentou-se e tocou-o de leve, passando as pontas dos dedos nos ombros, no peito ofegante
e foi descendo pela linha de plos encaracolados que se ampliava e adensava no pbis, realando a masculinidade desperta.
       Aquele era seu primeiro contato direto com o sexo masculino, mas de algum modo Claire, enquanto o admirava e absorvia a realidade fsica de Brad, sabia que
havia uma parte dela que j o conhecia e o aceitava para sempre.
       Antes que seus dedos percorressem o pnis trgido e quente, ela soube que o corpo dele ia se enrijecer e estremecer ao seu toque, que Brad ia gemer, fechar
os olhos e arquear a espinha entregando-se completamente s carcias dela, demonstrando o profundo prazer que sentia.
       O corpo de um homem era sexualmente to poderoso e to vulnervel ao mesmo tempo, maravilhou-se Claire, observando Brad cerrar os maxilares no esforo de
se controlar. Se apenas aquele leve toque tinha o poder de afet-lo tanto, como ele reagiria se ela beijasse a pele sensvel, se deslizasse os lbios por ela?
       Claire abafou um grito de susto quando Brad ergueu-se de sbito, afastou-lhe as mos e a fez deitar-se, passando imediatamente a beijar-lhe o ventre e as
coxas com uma urgncia alucinada, tocando-a, acariciando primeiro com os dedos e depois com a boca, com a lngua, at ela comear a gemer e a ondular o corpo. As
carcias redobraram e, enquanto estremecia e mexia-se num ritmo convulsivo, ela comeou a chorar e a dizer que no podia suportar mais tanto prazer.
       Porm, Brad no queria parar e no parou at estar completa e finalmente dentro de Claire, o corpo se movendo junto com o dela, gritando roucamente de gozo
quando, afinal, alcanou o xtase, levando-a consigo.
       Meia hora depois, ainda atordoada pelo prazer sensual e pela surpresa de tudo que acontecera, Claire tentava lutar contra as ondas de sono que passavam por
ela. Conseguiu apenas emitir um suave som de aprovao quando Brad a apertou mais contra si, como se tivesse medo que ela fosse embora, e mergulhou o rosto em seus
cabelos.
       Adormeceram.
       Quando ela acordou, altas horas da noite, a princpio no soube onde estava, mas o corpo de Brad junto ao seu e o som da voz dele dizendo algo ininteligvel
despertaram-na por completo e ela lembrou-se de tudo.
       A reao a fez tremer. Procurou livrar-se do brao de Brad que repousava sobre ela. Em algum momento ele devia ter apagado a luz, porque no quarto havia apenas
a tnue luminosidade que vinha de fora.
       Percebeu que a febre dele havia passado. Deslizou da cama com o maior cuidado, ento viu seu roupo no soalho.
       Vestiu-o e suas mos tremiam tanto que foi difcil amarrar o cinto.
       Corando de vergonha, lembrou-se como encorajara Brad a despi-la. Imagens do que havia acontecido desfilaram por sua mente e Claire encolheu-se, assustada
com o que elas revelavam. No se reconhecia naquelas imagens, no que elas lhe contavam a respeito de si mesma.
       Na ansiedade de sair do quarto de Brad, tropeou e prendou a respirao ao ver que ele se mexia no sono, franzindo a testa e apalpando a cama  procura dela.
Dela ou de uma mulher, qualquer mulher?
       Ser que ele soubera que era ela que o havia amado de modo to ertico ou apenas se deixara levar pela excitao, num estado de semiconscincia provocado
pela febre? Rezando para que a verdade fosse a segunda hiptese, ela correu para seu quarto.
       Quando se enfiou na cama fria, estremeceu. Brad a reconhecera, sim. Ele a chamara pelo nome, abrira os olhos e a vira, falara com ela, deixara claro que a
queria.
       Como poderia encar-lo depois daquilo? Perguntou-se. O cinismo do mundo aceitava que um homem fizesse amor com uma mulher sem ter qualquer compromisso com
ela. No entanto, se uma mulher fizesse o mesmo...
       Mas ela no tinha feito a mesma coisa. Tinha?
       Sentou-se na cama, passou os braos pelos joelhos dobrados e obrigou-se a encarar a verdade.
       No tinha a piedosa desculpa de atribuir o ocorrido  semiconscincia de uma febre alta. Sabia que sob a sensualidade que a dominara, que sob o intenso desejo
sexual que a apanhara desprevenida, como uma forte correnteza oculta pela superfcie calma das guas de um rio, havia algo mais profundo que a tornava to sensvel
a Brad.
       Algo mais profundo! Uma risada spera arranhou-lhe a garganta seca. Seja honesta! Exigiu. Voc o ama. Voc, uma mulher da sua idade, bancou a boba e teve
emoes prprias de uma adolescente!
       Uma mulher madura talvez, mas inexperiente e sem qualquer conhecimento de si mesma como ser sexual, justificou-se. Nesse sentido ela era ingnua e ignorante
como uma adolescente diante do primeiro amor. E a idade que tinha tornava a situao mais dura de suportar.
       - Admita - murmurou, apoiando a cabea dolorida nos joelhos -, voc foi atrada por ele desde o comeo, apesar de fingir que no. E esta noite, quando ele
a acariciou...
       Calou-se. No tentara resistir. Ao contrrio.
       Por que lhe era to difcil encarar a verdade do que sentia por Brad?
       Ser que precisava, mesmo, fazer-se tal pergunta?
       Seus lbios se apertaram, amargos. Claro que no precisava. Era difcil porque sabia que ia sofrer por amar Brad.
       Quando se tem dezessete anos  duro amar um homem sem ser amada, mas nessa poca a vida cura facilmente as feridas que ela mesma provoca. Encontra-se um novo
amor. Mas com trinta e quatro anos  para sempre,  um nico e definitivo amor.
       Fechou os olhos, retendo as lgrimas, e pensou que era incrvel como no se conhecia. Durante todos aqueles anos acreditara que jamais poderia ter intimidades
fsicas com um homem; acreditara que o trauma de juventude, suas inibies, as dvidas sobre a prpria sexualidade, sobre si mesma... que tudo isso seria para sempre!
       Essa noite lhe mostrara que estivera errada. Seu corpo revelara profunda sensualidade, despertara com as carcias de Brad.
       Ser que ao acordar ele iria lembrar-se do que acontecera?
       Enquanto lutava por acalmar o desespero, Claire pensou vagamente que Irene ficaria furiosa por Brad ir embora da sua casa, como ela achava que iria.
       CAPITULO VIII
       Claire acordou sobressaltada. A campainha tocava e o sol esgueirava-se por frinchas da cortina. Sonolenta, olhou o relgio: passava das dez horas.
       Afastou as cobertas, levantou-se e vestiu o roupo sobre o corpo nu. Os msculos doloridos atestavam silenciosamente os acontecimentos da noite anterior.
       Ao passar pelo corredor viu a porta do quarto de Brad aberta e a cama vazia. Ele j sara...
       A campainha soou de novo, num toque prolongado: a "visita" estava impaciente! Quando chegou  porta, por trs do painel de vidro recortava-se a silhueta de
uma mulher com uma menininha ao lado e um beb no colo. Abriu. A mulher era jovem, parecia abatida e nervosa. O beb comeou a chorar e a ga-rotinha acompanhou-o.
Irritada, a jovem me procurou acalm-los, ento indagou, ansiosa:
       - Brad est? - No esperou resposta: -  aqui que ele se hospeda, no? Ele me deu o endereo, mas no sei se anotei certo...
       O sotaque igual ao de Brad fez o corao de Claire se apertar, mas falou com calma:
       - Anotou certo, ele est hospedado aqui - deslocou-se de lado para a moa entrar e automaticamente estendeu os braos para o beb.
       - Oh, sim, obrigada - a jovem me entregou-o a Claire. - Ele est molhado e com fome...
       O beb abriu os olhos e o corao de Claire deu um salto: eram idnticos aos de Brad. Uma dor violenta cortou-lhe a respirao e ela teve impresso de morrer.
Mal ouviu a moa dizer:
       - Sou irm de Brad, Mary-Beth...
       Irm de Brad. A respirao voltou aos poucos. Ao ver os olhos de Brad no rostinho ainda indefinido do beb ela pensara que...
       -  Ele est? - Mary-Beth fitou-a com os olhos cheios de lgrimas.
       - J saiu, mas acho que voltar logo. Se quiser, pode telefonar para ele.
       - No - recusou Mary-Beth. - Prefiro esperar que volte. Sabe? Brad no me espera...
       Havia alguma coisa errada, pensou Claire. Ningum atravessa o oceano Atlntico com duas crianas sem um bom motivo.
       - Voc deve estar cansado e com fome - disse ao beb, que parou de chorar ao ouvir a voz dela. - Vamos at a cozinha?
       -  Ns trs estamos cansados - concordou a inesperada visitante.
       Olhando com ateno, Claire notou sinais de ansiedade e tristeza no rosto jovem e bonito. A menininha, que no desgrudava da me, parecia assustada.
       Mary-Beth dissera que preferia esperar, mas Claire sentiu que ela precisava ver Brad o mais depressa possvel. Pensou em telefonar-lhe e preocupou-se: o que
ele pensaria ao ouvi-la? Que estava com idias a respeito dele, depois da noite anterior?
       O problema de Mary-Beth  mais importante do que meu orgulho decidiu, enquanto levava a jovem para a cozinha. Em seu colo, o beb resmungava todo alegre.
       - Voc tem jeito com crianas - comentou Mary-Beth, sentando-se. - Ele chorou praticamente o caminho todo para c.
       - E vomitou trs vezes - acrescentou a menininha, com expresso comicamente sria no rosto redondo.
       - Esta  Lara - Mary-Beth apresentou a filha - e esse pacotinho molhado, cheirando a coco,  o Abe Jnior.
       - O Abe Snior  meu pai - explicou Lara. - Mas ele no veio com a gente. Ele est...
       - Psiu, Lara! - interrompeu-a a me. Desculpou-se com Claire: - Viemos bagunar a sua casa... Eu devia ter telefonado para Brad antes de vir.
       Dessa vez .ela no conseguiu segurar as lgrimas e virou o rosto para ocult-las.
       Meia hora depois, com as crianas trocadas, alimentadas e dormindo num dos quartos de hspedes, Claire serviu caf a Mary-Beth e insistiu que telefonasse
para o irmo.
       -  No, no - recusou-se ela. - Prefiro falar com Brad pessoalmente. Ele  o nico que... - interrompeu-se at o acesso de choro acalmar. - Quando tudo desaba
em cima de voc, quando no se consegue mais pensar, a gente precisa de ajuda. Brad  mais do que um irmo para ns, sempre resolveu nossos problemas e acho que
 por isso que eu...
       Ela apertou os lbios, depois disse, sombria:
       - Voc deve estar imaginando o que vim fazer aqui... H trs dias descobri que Abe, meu marido, tem um caso com uma colega. Claro, ele negou, mas uma amiga
os viu num bar. Ele me dizia qu ia trabalhar at tarde e eu acreditava... Pensei que ele me amasse, entende?
       - Escute, voc fez uma viagem longa, est exausta... Por que no se deita um pouco? - sugeriu Claire.
       Percebia nos olhos da jovem a profunda tristeza e a dor causadas pela infidelidade do marido.
       - Abe afirma que no tem nada com ela, que apenas procurava ajud-la nuns problemas pessoais. Disse que no me contou porque sabia que eu reagiria mal, que
eu no lhe dava mais ateno, que as crianas so mais importantes para mim e, at, que me importo mais com Brad do que com ele, que ouo mais o que Brad diz, que
sempre corro para Brad quando preciso de ajuda...
       Calou-se, procurando controlar-se. Ento, voltou a falar:
       - Acho que vou mesmo descansar um pouco, se me d licena. No consigo mais pensar... Abe no sabe que vim para c. Eu queria ver Brad, falar com ele. Ento,
enfiei umas roupas das crianas na maleta, telefonei para a agncia e depois s me lembro de estar voando para c.
       Levantou-se e abafou um bocejo, exausta.
       Assim que Mary-Beth se acomodou, Claire desceu e telefonou para a empresa. Brad no estava e Tim informou-a que deveria voltar dentro de uma hora.
       - Voc diz a ele para me telefonar, assim que chegar? - pediu ela.
       Agradeceu e desligou, sem explicar o porqu. Os problemas de famlia de Brad s a ele interessavam. Subiu, deu uma espiada no quarto que Mary-Beth ocupava
com as crianas: dormiam tranquilamente.
       Enquanto arrumava o quarto de Brad e colocava toalhas limpas no banheiro, pensava em Mary-Beth com certa inveja: no tinha, como ela, em quem confiar e a
quem recorrer.
       No estava sendo justa, repreendeu-se. Amor fraternal nenhum podia compensar um marido infiel e um casamento fracassado. Alm disso, vira a angstia nos olhos
da pequena Lara: por mais amoroso que um tio fosse no podia substituir um pai.
       No reprovava Mary-Beth: descobrir que o marido, o homem que voc ama, que prometeu ser s seu, o pai de seus filhos, foi visto com outra, que faz sexo com
outra, deve ser uma das experincias mais dolorosas do mundo.
       Ao descer, deu uma espiada na geladeira: pelo modo que Mary-Beth apenas mexera na comida, duvidava que comesse muito, mas as crianas, principalmente o beb,
eram outra histria.
       Tinha bastante leite, frutas e verduras em casa. Seria fcil preparar comida para os pequenos. Quanto a Lara, quando o tio chegasse trataria de convenc-la
a ficar com ela, para que ele e a irm pudessem conversar. Era evidente que a menina percebera um problema entre os pais. As crianas, por menores que sejam, sentem
a tenso dos adultos e sofrem.
       O rudo de um carro chegando espantou os pensamentos. Brad? Esperava que ele telefonasse, no que viesse. Seu estmago apertou-se: era a primeira vez que
se veriam depois de... Pare com isso! Ordenou-se; no era hora de pensar nessas coisas.
       A porta da cozinha abriu-se e ela voltou-se, visivelmente nervosa.
       - O que foi, Claire? - indagou Brad. - Algo errado? Aproximou-se como se fosse abra-la e a atrao fsica que culminara na noite anterior voltou a estabelecer-se
entre eles. Claire viu que lhe seria faclimo percorrer tambm uma parte da distncia que os separava e aninhar-se no peito dele.
       -  Claire...
       A voz de Brad vibrava de ternura, mas um barulho no hall interrompeu-o, a porta abriu-se e Mary-Beth lanou-se nos braos do irmo, chorando.
       - Brad, graas a Deus voc est aqui!
       - Mary-Beth! - A surpresa dele era enorme. Olhou para Claire, por cima da cabea da irm. - O que...
       Discreta, Claire saiu da cozinha. Do hall, ouviu o choro do beb e subiu para atend-lo. Ao entrar no quarto, viu que Lara tambm acordara.
       -  Cad a mame? - afligiu-se a menina.
       - Est l embaixo, conversando com o tio Brad - acalmou-a Claire. - Sabe onde esto as fraldas? Acho que seu irmozinho fez xixi...
       Distraiu a pequena Lara, incentivando-a a ajud-la. Supunha que Mary-Beth no queria que a filhinha ouvisse o que ela e o irmo iam dizer sobre o pai. Depois
de trocar o beb, enquanto lhe dava a mamadeira, notou que a menina olhava para a porta a todo instante. Pouco depois, ouviu a voz de Brad e a da irm na escada.
       - Mame! - Lara correu para Mary-Beth assim que a porta se abriu. - Quando a gente vai para casa? Quero o papai...
       Mary-Beth tinha chorado e a pequena fez cara de choro ao notar; foi Brad quem salvou a situao, erguendo-a ao colo e exclamando:
       - Ol, docinho!
       - Tio Brad! - a garota abraou-o, toda contente.
       - Vou verificar qual  o vo com lugares livres, para vocs voltarem - disse Brad  irm, ainda abraado  sobrinha.
       -  No volto para a minha casa e no volto sem voc - teimou Mary-Beth.
       - Escute, j expliquei por que no posso ir - Brad falava com pacincia, mas firme. - Tenho problemas a resolver por aqui.
       - Pode ser, mas eles no so mais importantes do que os problemas da sua famlia, Brad! - cobrou Mary-Beth. - Nossos tios vo entender, eu preciso de voc!
       - No posso, Mary-Beth!
       - Ento, eu tambm no vou - declarou ela.
       - O Abe...
       A irm recusou-se a ouvir:
       - No quero falar dele, nem com ele!
       - Tem que falar - insistiu Brad, calmo. - Se no por voc, pelas crianas. Elas precisam do pai e ele tem direitos.
       - Ele no tem direito algum. Perdeu-os no momento em que comeou a andar com aquela... aquela... - A um sinal de Brad, viu que Lara a olhava, aflita. - Se
quer que eu fale com ele, voc tem que ir comigo e ficar junto! No tenho vontade de ver aquele monstro depois do que ele fez!
       Era evidente que o gnio da irm de Brad correspondia ao que seus cabelos ruivos sugeriam e que estava muito magoada com a infidelidade do marido. Sob a aparncia
de orgulho e determinao, Claire percebia dor e tristeza nos grandes olhos azuis.
       - Voc disse que Abe jurou que no houve nada entre ele e a moa - lembrou Brad.
       - Ele s podia fazer isso! - ironizou Mary-Beth. - Viu que tinha tudo a perder! Oh, Brad, como  que ele pde? Pensei que Abe me amasse.
       As lgrimas desceram pelo rosto de Mary-Beth e Lara comeou a chorar tambm, solidria com a me.
       - Querem que eu v at o jardim com as crianas? - ofereceu Claire. - Vocs tm muito a conversar e...
       - J dissemos tudo que havia para dizer - afirmou Mary-Beth. - No adianta, Brad. No vou voltar para Abe e no vim aqui para ouvi-lo defender aquele bandido!
Pensei que voc gostasse de mim...
       Ela caiu em prantos de novo. Em silncio, Claire ps o beb adormecido na cama, pegou a mo da assustada Lara e viu, emocionada, que Brad lhe sorria e aprovava
sua deciso.
       - Quero ficar com a minha me! - protestou Lara. Mas Claire estava habituada a lidar com crianas.
       - Quer? - perguntou, tranquila. - Oh, que pena! Eu ia pedir que voc me ajudasse a fazer biscoitos... Aposto que sabe cozinhar, no sabe?
       -  Sei, sim! - animou-se a menininha. - Que biscoito a gente vai fazer?
       - Qual voc prefere?
       E as duas saram do quarto.
       Lara e Claire haviam acabado de colocar a assadeira com biscoitos no forno quando Brad e Mary-Beth desceram. As duas tinham conversado por mais de meia hora
e Claire ficara sabendo muito sobre Abe e Mary-Beth.
       - Tenho que voltar com Mary-Beth - disse Brad, enquanto atendia a sobrinha, que lhe mostrava os biscoitos. - Consegui passagens para esta noite. Desculpe
tudo isto... - fez um gesto que abrangia a irm e a sobrinha.
       - Tudo bem - garantiu Claire. - Fiquei contente por voc atender to depressa ao meu recado, mas esperava que telefonasse e no que viesse correndo.
       -  Que recado? - as sobrancelhas dele franziram-se.
       - Telefonei para avis-lo da chegada de Mary-Beth. Pedi ao Tim que lhe dissesse para me telefonar.
       Se ele no recebera o recado, por que voltara? Pensou Claire, mas antes que pudesse falar Mary-Beth comeou a se lamentar: s iriam embora  noite e no tinha
trazido roupas e papinhas prontas suficientes para Abe Jnior.
       Brad perdeu a pacincia e repreendeu a irm pela precipitao: deveria ter tentado resolver o problema com o marido antes de submeter s crianas ao cansao
de um vo transatlntico!
       Ao ver que Mary-Beth se afligia com a zanga do irmo, Claire sugeriu lev-la ao supermercado para comprar o que precisava. De imediato ela voltou-se para
o irmo:
       - Brad, voc me leva? No estou com cabea para pensar... Vou l em cima pegar a bolsa.
       Era natural que ela preferisse Brad a uma estranha, pensou Claire e no havia motivo de se sentir magoada, excluda.
       Desde que havia chegado, vrias vezes Brad parecera querer dizer-lhe alguma coisa e era claro que no estava contente, mas, o que podia fazer seno concordar
em voltar com ela?
       Era fcil para Claire compreender, mesmo sem conhecer Mary-Beth e nunca ter visto o marido dela, que era necessria toda habilidade e juzo de Brad para salvar
o casamento da irm.
       - Claire - ele segurou-lhe o brao -, sinto muito. Se houvesse um modo de convencer Mary-Beth a voltar sozinha eu...
       - Ela precisa de voc, Brad - interrompeu-o Claire, em voz baixa. - Est transtornada.
       - ... - concordou ele, aborrecido. - Mas ela sempre teve mania de fazer escndalos  toa e acho que este  mais um deles. Abe no poria em jogo seu casamento.
       -  Parece que Mary-Beth no  dessa opinio...
       Brad assentiu e olhou para a irm, que chegara  porta, com as crianas:
       - Que hora mais idiota de isso acontecer! - exclamou ele.
       -  Brad - chamou Mary-Beth -, vamos ou no?
       Ser que imaginara a frustrao nos olhos de Brad ao soltar-lhe o brao e sair? Perguntou-se Claire.
       -  Ento, ele voltou para a Amrica com a irm? - perguntou Hannah.
       - Pois  - Claire tirava a loua da lavadora. - Faz duas horas que foram, acho que o avio deles j deve ter sado.
       Ao despedir-se dela no hall, Brad dissera que esperava estar de volta em uma semana. Parecia triste e zangado, mas Claire no sabia se por causa da irm ou
pelo que acontecera na noite anterior. Estremecia ao lembrar que pensara em perguntar a Brad se o amor que haviam feito fora to avassalador e maravilhoso para ele
quanto para ela. Se, como ela, descobrira que jamais poderia amar tanto e to profundamente outra pessoa... Felizmente, se contivera, limitando-se lhe desejar boa
viagem.
       Mary-Beth a abraara agradecendo por tudo, ao contrrio de Brad, que apenas lhe apertara a mo.
       - Quando Brad volta? - quis saber Hannah. - Voc vai sentir falta dele! Depois que a gente tem um homem em casa...
       - Ele ficou pouqussimo tempo, Hannah - lembrou-a Claire. O diabo  que Hannah tinha razo... ou quase. El no ia sentir falta de Brad: j estava sentindo!
E, pior, via-se atormentada pela insegurana, pelas dvidas, perguntando-se se a intromisso da irm no acontecera no momento certo, ao contrrio do que ele afirmara.
Essa suposio a fazia sofrer as penas do inferno.
       Depois de Hannah ir embora, Claire zombou de si mesma: voc foi para a cama com ele, fizeram sexo e da? Por que isso tem que significar alguma coisa para
ele?
       Ser que Brad lembrava do que acontecera? Perguntou-se, desolada. Afinal, ele estava com uma febre to alta!
       Qual era a pior hiptese? Imaginou com aflio. Ele no lembrar de nada do que acontecera ou lembrar e achar que no tinha qualquer significado?
       E o que ela preferiria, se tivesse tido escolha? Passar por aquela experincia nos braos dele, descobrir sua capacidade de amar, de ser amada fisicamente
e sofrer por isso ou permanecer na ignorncia, no mundo sem cor e calor em que vivia?
       Essa foi uma das perguntas que Claire no soube responder nas longas e vazias noites que passou sem Brad.
       CAPITULO IX
       Passou-se uma semana sem notcias de Brad, depois outra e quando a terceira ia em meio Tim telefonou dizendo que ele ligara para a empresa:
       - Brad tentou falar com voc, mas ningum a atendeu. O tio dele, aquele que dirigia a empresa, sofreu um ataque cardaco e est na UTI. Como tem que substitu-lo,
ele acha que no vir para c to cedo.
       - E as coisas dele? - estranhou Claire. - Ficou tudo aqui. Sentia-se como que amortecida; at Tim dizer que Brad no voltaria ela no percebera quanto precisava
dele, quanto se agarrava ao frgil lao que os unia. Tim acabava de cortar esse lao e ela teve a sensao de estar solta no espao, envolta em medo e angstia:
o mundo desmoronara ao seu redor.
       - Teremos que despachar a mala - a voz de Tim soou distante. - Quando Brad telefonar, me d as coordenadas que eu cuido de tudo.
       Depois de desligar, Claire subiu a escada como um autmato e entrou no quarto que Brad ocupara. Seria impresso ou um leve cheiro dele pairava no ar? Seu
sabonete, sua pele... Uma violenta sensao de perda fez o corpo dela dobrar-se de dor.
       Reagiu e aproximou-se da cama; passou as mos no travesseiro, os olhos enchendo-se de lgrimas.
       Era ridculo comportar-se daquele jeito! Zangou-se. Era uma mulher adulta. Mulheres adultas no se apaixonam profunda e intensamente em alguns dias... Pelo
menos, dizem que no. Dizem que o corao das mulheres adultas e seus corpos no doem com a intensidade que o dela doa.
       O corpo delas... Seu corpo... Seu corpo a trara, arrastando-a para uma armadilha de falsa segurana, fazendo-a acreditar que era incapaz de sentir, de necessitar
e de desejar algum como desejava Brad.
       Tim dissera que ele tentara falar com ela pelo telefone... Lembrou-se das ltimas horas frenticas, antes que Brad fosse embora com a irm. Vrias vezes ele
procurara falar a ss com ela, sem conseguir. At esse momento, Claire imaginara que Brad queria dizer-lhe que a amava, que era srio e profundo o que havia entre
eles. Agora, achava que ele apenas pretendia dizer-lhe "Muito obrigado, foi bom, mas acabou".
       Acabou! A garganta de Claire apertou-se. O que no comeara no podia acabar. O que havia para acabar? Haviam tido apenas uma noite, uma aventura sexual,
e fora uma idiota ao achar que era mais do que isso.
       No adiantava se atormentar pensando no que poderia ter sido. O melhor era esquecer o que acontecera, esquecer Brad, fechar a porta do passado e jogar a chave
fora.
       Era fcil de dizer e difcil de fazer. Foi o que Claire descobriu nas semanas seguintes.
       Irene comentara os acontecimentos  sua maneira, com a indiferena que tinha a tudo que no fosse de seu interesse imediato: Tim aceitara as sugestes de
Brad, inclusive a de fazer um aprendizado e treinamento para melhorar seu desempenho no cargo; viria algum da Amrica, Brad j escolhera quem, para treinar o pessoal
e disse que a situao de seu marido estava bem melhor.
       Ao contrrio de como sempre fora, Claire no sentia o menor entusiasmo pelo futuro de Tim e Irene, pelas conversas com Hannah, que antes a distraam e divertiam
tanto. No ligava para nada e ficou surpreendida ao descobrir que a cunhada se preocupava com ela muito mais do que parecia...
       Naquela manh ficara sabendo que a escola onde trabalhava ia fechar e as crianas mudariam para uma escola do outro lado da cidade. Mais do que ficar sem
o trabalho de que gostava, entristeceu-se porque os pequenos iriam ter dificuldade era se adaptar ao novo ambiente, teriam medo e insegurana. Pensava nisso, preocupada,
quando Sally chegou.
       - Aconteceu alguma coisa? - perguntou, aflita, pois quela hora a enteada devia estar no trabalho.
       - Segundo tia Irene, eu  que devo lhe perguntar isso - respondeu Sally. Acrescentou, suave: - Desculpe eu me meter na sua vida, mas desde que voltei da lua-de-mel
percebi que h algo errado; voc anda agindo de modo estranho, ausente. Ento, comecei a...
       Sally calou-se, embaraada como Claire nada dissesse, pressionou: - Bem, comecei a pensar se tem a ver com a armao do buque que Chris e eu fizemos para
brincar com vocs. Telefonei para a Silvana e ela me despachou, disse que estava ocupada e que falaria comigo outra hora. Com Patrcia no d nem pra tentar... Eu
no quero que ela sofra mais. Se magoei voc, me desculpe! Quase chorando, Sally ajoelhou-se junto de Claire e escondeu a cabea no colo dela, como fazia quando
era pequena e tinha um "crime" a confessar ou precisava de consolo. Com gesto automtico, Claire alisou-lhe os cabelos.
       - Se ficou zangada comigo por causa do buque, eu s fiz aquilo porque... acredite em mim... Chris e eu... Sou to feliz com ele... Queria que voc tambm...
       A voz de Sally falhou e ela mordeu os lbios. Por fim, voltou a falar - Voc  uma me maravilhosa para mim... sempre foi. Gosto tanto de voc, Claire! Quando
Chris perguntou se eu tinha notado que o seu casamento... que meu pai... Calou-se. Depois disse, com firmeza:
       - Deve ter sido duro para voc. Papai nunca fez segredo que continuava amando Paula.
       - Era sua me, Sally - lembrou-a Claire, carinhosa. - No se refira a ela desse modo. Sei que tenho um lugar no seu corao e na sua vida... Nunca senti cime
nem inveja de Paula, mas sim tristeza por ela no ter tido a felicidade de ver voc crescer. Sei que quando voc tiver filhos vai lhes falar da av Paula, mas eu
 que vou contar histrias para eles, deix-los fazer coisas proibidas...
       - Voc sempre foi a minha me. - Sally fazia tudo para no chorar. - Sempre! Sei que vocs trs fizeram um pacto de nunca se casar, quando pegaram o buque.
Hannah me contou... Juro, Claire, no fiz aquilo para mago-la!
       - Eu sei querida.
       - Bom, se no  isso, o que  ento? - insistiu Sally. - No responda "nada", porque sei que h algo errado.
       - Hoje de manh eu soube que a escola vai fechar - justificou-se Claire, sem mentir.
       - Oh, no! Que pena... Sei o quanto voc gosta das crianas. - Sally levantou-se. - Tia Irene tem certeza que voc est assim por causa do americano que esteve
aqui. Bart...
       - Brad -. Corrigiu Claire, tranquila.
       Foi colocar gua para ferver a fim de fazer caf e esconder o rosto do olhar da enteada, com medo de se trair: apenas dizer o nome dele fazia seu corao
disparar e doer terrivelmente.
       Pela primeira vez Claire gostou quando Sally foi embora. Ela ainda flutuava na nuvem rsea ps lua-de-mel, porm j comeava a perceber o que acontecia ao
redor e seria capaz de ver que as coisas no estavam mesmo bem. Se Irene desconfiava, como conseguiria esconder a verdade de Sally?
       A resposta estava em suas mos, decidiu. Se no quisesse passar pela dor e humilhao de Sally ficar sabendo como fora estpida, tinha que fazer um esforo
para esquecer Brad e o amor por ele.
       Seria bem mais do que um grande esforo, pois j era enorme o que fazia para viver sem ele. Incrvel como se relacionara emocionalmente com Brad em to curto
perodo e aceitara to profunda intimidade. Tinha por ele um amor profundo que no era correspondido, tratou de recordar...
       Depois de lavar as xcaras, ficou imvel, olhando pela janela da cozinha. Na semana seguinte faria trs meses que Sally se havia casado. A data estava marcada
em vermelho, no calendrio da cozinha.
       Imaginou, com amargura, se era a nica do trio que havia sido apanhada pela armadilha de Sally. De qualquer modo, iria ao encontro marcado com a certeza que
no quebraria a promessa: nunca se casaria.
       Brad olhava a famlia entusiasmada, reunida no churrasco anual que ele institura desde o falecimento dos pais. Para no impressionar os irmos pequenos,
ele decidira que em vez de chorar todos os anos, naquela data, eles deviam alegrar-se por estar juntos e por seus pais ainda os amarem, mesmo no estando presentes
para demonstrar esse amor.
       Com o passar dos anos, esse acontecimento familiar transformara-se praticamente numa instituio local e a cidade quase inteira comparecia ao churrasco, no
amplo terreno da casa de campo dele,  beira da represa.
       O inverno cedera lugar  primavera; os dias se tornavam cada vez mais longos e mais quentes. Logo viria o vero, com intenso calor, e todos se divertiriam
nadando na represa.
       Sorriu, meio triste, ao ver um dos sobrinhos tentando namorar uma desdenhosa garota de cabelos vermelhos, que viria a ser uma mulher muito atraente, mas por
enquanto era uma adolescente quase assexuada, de pernas finas e peito chato.
       Durante anos se chocara por os pais terem morrido na estao em que a natureza revivia, repleta de promessas e vigor, mas aos poucos se conformara.
       - Est muito pensativo!
       Voltou-se e sorriu para Mary-Beth, que se aproximou e apoiou a cabea no ombro dele.
       - Ainda no agradeci por voc ter insistido que eu conversasse com Abe. Se no o tivesse feito... - ela suspirou. - Tenho um gnio horrvel!
       - Voc j devia ter aprendido a confiar no seu marido - foi o comentrio seco de Brad.
       - Bom, sabe como ... Acho que me tornei um tanto insegura por ter crescido sem mame e papai. Desconfio de Abe, do amor dele. Mas voc no pode me criticar!
- acusou, reagindo.
       - No se casou e no quer saber de ligaes sentimentais.
       - Como ? - Brad ergueu as sobrancelhas. - O que acha que sempre tive com todos vocs? Pense e repita o que disse, se for capaz.
       - Ora, no me referi  ligao sentimental conosco - defendeu-se Mary-Beth. - Voc  o melhor irmo que existe. Mas j teve algum s para voc, Brad? Quero
dizer... todos ns casamos. No se sente s? - No gostou do modo que Brad a olhava: - No me venha com essa pose de irmo mais velho! Sei o quanto se sacrificou
por ns e que lamenta o tempo que perdeu, principalmente com a empresa...
       Mary-Beth baixou os olhos por instantes e desenhou um corao na terra, com a ponta do p.
       - Ns sabemos que voc no queria ir  Inglaterra - continuou, em voz mais baixa -, que depois no queria voltar e assumir a fbrica... E eu sei, apesar dos
outros no saberem, o quanto voc ama aquele barco que constri h anos. Mas tenho certeza que se sair velejando sozinho pelo mundo vai detestar, Brad. Voc  um
homem da famlia, um patriarca...
       - No aposte nisso! - avisou-a Brad, cido.
       Quis retirar-se, porm Mary-Beth impediu:
       - Espere. Tenho mais uma coisa para dizer. Sabemos que tio Joe no teria resistido ao ataque cardaco se voc no estivesse aqui para anim-lo. Porm, ele
jamais poder voltar a dirigir a empresa e ns...
       - Vocs, o qu? - indagou ele, com amargor. - Vocs decidiram me mostrar que so o motivo de minha vida e que  este o jeito que eu gosto de viver?
       - Brad...
       Ele sabia que magoara a irm e amaldioou-se ao ver os olhos azuis se nublarem.
       - Voc mudou tanto! - queixou-se ela. - Anda to nervoso, to agressivo! Ns queremos tanto que voc seja feliz!
       Ele estendeu os braos, Mary-Beth aninhou-se neles e ficou calada. Depois foi reunir-se ao marido e filhos.
       Cada um deles tinha sua companhia, sua vida e isso jamais o perturbara, refletiu Brad. At ento os olhara como parte de si mesmo; nunca ficara de lado num
momento como aquele, do jeito que acontecia nesse dia. No conseguia participar da alegria geral. Seu corao queria mais uma pessoa ali.
       Por que Claire no retornara seu telefonema? Tentara falar com ela a ss antes de vir embora com Mary-Beth, mas no houvera chance. Pouco depois de chegarem,
tio Joe tivera o ataque cardaco, sem grandes esperanas de sobrevivncia, e ele fora absorvido pelos problemas prticos.
       Quando, afinal, tivera calma e tempo para telefonar ela no estava em casa; ento, falara com Tim, para explicar o que acontecera. A semana inteira esperara
que Claire telefonasse; todo dia ao chegar em casa verificava a secretria eletrnica. Fazia duas semanas e como Claire no telefonara, ele achava que era claro
que aqueles momentos maravilhosos partilhados pelos dois - que ele no podia lembrar sem que seu corpo exigisse a presena dela - no tinham significado nada para
Claire. Seu corao se apertou dolorosamente: enganara-se pensando que havia encontrado a mulher da sua vida. Sem ela, jamais seria um homem completo.
       A ausncia de Claire era o motivo de sua insatisfao: ela era a mulher que sempre esperara e por isso nenhuma das que conhecera at ento havia entrado de
fato em sua vida. Ser que a perdera porque a assustara por no conseguir controlar o poderoso desejo que sentia por ela? Depois de saber o que acontecera na adolescncia
de Claire, deveria ter ido mais devagar, com calma, at habitu-la  intimidade entre eles.
       Mas no fora a necessidade machista de provar que era capaz de despert-la para o sexo que o fizera possu-la. Ele o fizera porque; a queria desesperadamente,
porque fora incapaz de se conter.
       Este fato era indesculpvel num homem maduro como ele, pensou desgostoso. E ainda se admirava por Claire no querer saber dele?
       De sbito, notou que tio Joe o observava. Ele se achava mais adiante, sentado em sua cadeira de rodas, e Brad aproximou-se demonstrando alegria:
       - Parece que todo mundo est feliz, no, tio Joe?
       - Todo mundo, menos voc - foi a inesperada resposta do tio. - Nem se d ao trabalho de negar, menino! Estou olhando voc h bem meia hora e tenho certeza
que no  o mesmo desde que voltou da Inglaterra.
       - Que esperteza a sua, tio! - Brad tentou brincar. - Quando cheguei voc se enfiou numa UTI e apavorou todos ns!
       - Bom, mas escapei de l e acho que vou ter mais alguns dias de vida.
       - Muitos, tio, vai passar dos cem! Voc  um velho trapaceiro.
       - E voc um bobo - devolveu Joe, fitando-o com ternura. - Sempre se dedicou  famlia, Brad, sempre colocou seus irmos acima de tudo, at de voc mesmo.
Eles cresceram, esto levando suas vidas e se voc no quiser acabar s, como eu...
       Olhou o sobrinho intensamente, ento indagou:
       - Quem  ela? Conheceu-a na Inglaterra? Estive l durante a guerra e quase me casei com uma inglesinha... Elas so lindas! Teria me casado se no a tivesse
perdido para um piloto. Foi o maior erro da minha vida.
       Brad olhou o tio com ateno. Conhecia-o bem e sabia que Joe manipulava a verdade de acordo com os resultados que pretendia; com certeza ele desconfiava que
houvera algo e queria apanh-lo de jeito.
       - Nunca ouvi falar que voc teve uma namorada inglesa, tio!
       - Porque nunca falei nela - garantiu o velho. - No gosto de mencionar meus erros e espero que guarde esta confidncia entre ns... Eu devia ter me casado
com ela quando tive a chance, porm achei melhor ficar solteiro e livre mais uns tempos. Eu era jovem e meio cabea-oca, ela achou que eu no a amava, apareceu o
outro e a perdi.
       Os olhos cansados de Joe ficaram alguns momentos perdidos em lembranas.
       - Dei a volta por cima - continuou. - Voltei da guerra, conheci sua tia Grace e nos cansamos, mas nunca esqueci minha namorada inglesa... Margareth, mas a
chamavam de Meg. - Fez uma pausa, marcada por profundo suspiro. - Grace e eu nos demos muito bem. Quando a conheci, o noivo dela tinha morrido na guerra. No tivemos
filhos e, um dia, ela morreu. As vezes, olhando para vocs, fico pensando... Se tivesse me casado com Meg talvez meus netos estivessem aqui.  duro no ter famlia,
Brad.
       - Mas eu tenho famlia aquil - reagiu Brad.
       E sentiu vontade de dizer: "A minha namorada inglesa no me quer...", mas era forte o hbito de resolver sozinho os prprios problemas, desde que os pais
tinham morrido.
       - O homem pertence ao local onde seu corao est, menino. L  seu verdadeiro lar.
       O tio Joe tinha razo, reconheceu Brad mais tarde, quando a noite chegava e a famlia estava reunida ao redor da enorme fogueira; os menores perto dos pais,
os maiores formando um grupinho a parte, grandes demais para ficar com os "velhos", como os irmozinhos, e pequenos demais para separar-se do grupo familiar.
       Abe pegou o violo. Tocava bem e tinha uma bonita voz. Quando Mary-Beth o conhecera, ele era vocalista de um conjunto musical. Sorriu, lembrando-se que ficara
furioso e aconselhara a irm a no se envolver com um cantor.
       Em poucos minutos todos cantavam com Abe e as vozes produziam um som harmonioso, lindo como a famlia unida, pensou Brad. No entanto, para ele faltava uma
voz.
       Em silncio, distanciou-se da fogueira.
       Junto da represa seu barco esperava, quase pronto, mas o sonho de velejar perdera o encanto. Sua vida ficara vazia, ele ficara vazio.
       Tio Joe tinha razo. Seu corao no estava mais ali. Estava muitos quilmetros alm, do outro lado do Atlntico, com uma mulher. E os suaves gemidos de amor
dessa mulher ressoavam em seu quarto todas as noites, num cruel tormento.
       Claire... Claire...
       CAPTULO X
       Era a primeira a chegar ao encontro, notou Claire enquanto o maitre a conduzia pelo restaurante quase vazio. Levou-a para uma das mesas junto  parede de
vidro que dava para o jardim do hotel, repleto de flores.
       Sorriu, agradeceu ao maitre e recusou o aperitivo que ele ofereceu.
       Se no tivesse confirmado o almoo com as outras duas, uns dias antes, pensaria que elas no viriam. Antes de telefonar para Pat, estivera com Sally e a enteada
comentara, com ar misterioso:
       - Aconteceu uma coisa incrvel, Claire!
       -  O que foi? - indagara ela.
       - Chris me proibiu de contar. Mas se for verdade... Custo a acreditar! Chris sempre disse que ia acontecer.
       - Pat est amando algum? - sugerira Claire.
       - Bem, eu... - Sally sacudira a cabea. - Prometi a Chrs no contar.  algo muito delicado, entende?  difcil. Nem sei se  verdade. Eu queria contar a
voc, mas...
       - Ento, esquea, querida. Pat passou por uma fase triste e  normal que Chris queira evitar-lhe mais desgostos.
       - Isso mesmo - concordara Sally. - Mas voc me conta se Silvana ou Pat quebrarem a promessa, no conta?
       - Nem morta! - exclamara Claire. - Somos uma por todas e todas por uma. Alis, voc seria a ltima pessoa a quem eu daria esse gostinho!
       - Quanto  Silvana - voltara Sally -, voc sabia que tio Tim perguntou-lhe se estaria interessada em trabalhar como Relaes Publicas da empresa? Tia Irene
me contou.
       Claire no sabia. Alis vinha evitando a cunhada, pois tinha certeza de que sua lngua afiada e olhos vivos podiam penetrar a frgil barreira de proteo
que ela construra ao seu redor. Defendia-se como podia das pessoas que a rodeavam, mas no conseguia se defender do sofrimento que era amar Brad. Durante o dia
at que pensava pouco nele, mas  noite era infernal. Custava a dormir e quando dormia acordava chorando de tristeza e de saudade.
       - Quer dizer que no sou a ltima... - Silvana acabava de chegar. - Pat ainda no veio?
       Sorrindo, Claire fez que no com a cabea:
       - Deve estar chegando. Falei com ela por telefone, tambm.
       - Sei... Mas se o que ouvi for verdade, Pat no vai chegar nunca e...
       Calou-se ao ver que Patrcia se aproximava.
       Se era verdade que Pat tinha um novo amor, no parecia, pensou Claire. Estava mais magra e com cara de mais infeliz do que na ltima vez que a tinha visto.
Indicou a cadeira a seu lado, enquanto examinava o rosto da jovem com ateno.
       De fato, estava mais magra e nervosa; olhava constantemente por cima do ombro e falava em voz baixa, apesar de haver pouqussimas pessoas no restaurante.
       - Vocs duas eu no sei - anunciou Silvana, pegando um dos trs cardpios que o garom trouxera -, mas eu estou morrendo de fome e disposta a festejar nossos
trs meses livres do casamento. Pelo menos os meus trs meses foram sem sombra de casamento e de homens... - acrescentou, fitando Claire e Pat inquisitamente. -
E vocs?
       - Eu no tenho a menor inteno de casar - respondeu Claire, rpida, cruzando mentalmente os dedos.
       - Nem eu!
       Patrcia falou convicta, mas ficou vermelha e Claire poderia jurar que ela estava quase chorando. Coitadinha... Seria por causa do Chris ou haveria outro
algum?
       Enquanto fingia estudar o cardpio, Claire fez uma pequena prece pedindo que Patrcia fosse feliz, que ficasse alegre como uma jovem da idade dela devia ser.
De sbito, deu-se conta de quanto havia mudado: h trs meses no se emocionaria tanto, pois no tinha a menor ideia do que era o amor completo, emocional e fsico,
e no saberia o que as trs estavam perdendo.
       Agora sabia... Conhecera a realizao amorosa, ainda que por pouqussimo tempo, e odiava pensar que as duas jovens poderiam passar a vida sem conhec-la.
Agora tinha certeza de que as mulheres, por mais que tivessem sucesso na profisso, precisavam realizar o emocional em suas vidas; aprendera que o amor fazia parte
da natureza e no podia ser ignorado. Essa era, concluiu, a maior fora e a maior fraqueza do sexo...
       - A nossa liberdade, ao celibato! - brindou Silvana, depois que o garom as serviu e retrou-se.
       Claire ergueu o copo sem entusiasmo e quando o levou aos lbios percebeu que sua mo tremia; a imagem de Brad surgiu-lhe na mente e seu corao doeu.
       Sabia que se fechasse os olhos sentiria o gosto da boca dele, de seu beijo, em vez de sentir o gosto do vinho. Foi sua vez de lutar contra as lgrimas.
       Brad... Se pudesse apagar as lembranas, esquecer como era am-lo e ser amada por ele... Se pudesse esquecer o som da voz dele quando lhe pedira que confiasse...
       Voltou  realidade com Patrcia erguendo-se, plida, e correndo para o banheiro.
       -  Acho melhor ir ver se ela est bem... - disse Claire, levantando-se. - Pat no comeu nada, ser que est com problemas de estmago?
       - No sei - Silvana sacudiu os ombros -, mas se o que ouvi dizer for verdade... - Calou-se porque o garom se aproximava para avisar que a chamavam ao telefone.
- Vou atender, Claire. D licena?
       Enquanto Silvana ia para o telefone, Claire foi para o banheiro. Patrcia estava diante do espelho, penteando os cabelos e bem menos plida do que quando
sara da mesa.
       - Desculpe... - sussurrou, sem jeito. - No estou muito bem... Eu...
       Claire tentou aliviar a tenso:
       - Isso no  nada. Voc viajou, no? Sua me me disse, quando telefonei. Esteve na Itlia, num congresso, creio.
       Para surpresa de Claire, Patrcia passou de plida a quase roxa, de to ruborizada.
       Por que uma simples meno  viagem a perturbava tanto? Perguntou-se Claire, enquanto voltavam para a mesa. No tinha coragem de indagar Pat, menos ainda
quando Silvana voltou.
       Mais tarde, depois de paga a despesa, quando se dispunham a ir embora, Silvana perguntou:
       - Mesmo lugar,  mesma hora, daqui a trs meses? A no ser,  claro, que vocs estejam escondendo alguma coisa.
       - Daqui a trs meses - confirmou Claire e imaginou se sua voz parecia estranha para as duas, como para ela.
       Quando j estavam na rua, Silvana contou que teria uma entrevista com Tim naquela tarde:
       - Era ele ao telefone. Disse que o plano para o Departamento de RP est para ser aprovado, mas que preciso ir  Amrica e discutir os detalhes com Brad. Eles
pagam a passagem e as despesas. Voc o conheceu, no, Claire? Como ele ?
       -  muito... muito agradvel - gaguejou ela e viu que as sobrancelhas de Silvana erguiam-se. - Eu no... no tive tempo para conhec-lo bem...
       E era verdade. O homem que ela pensava ter conhecido no existia, caso contrrio no teria sumido de sua vida. Criara uma imagem de Brad de acordo com seus
prprios sentimentos, pensou amarga.
       - Sei... - murmurou Silvana. - Bem, parece que ele est na chefia da empresa e pretende incentivar as vendas da filial inglesa. Um dos passos  fazer Relaes
Pblicas.
       Silvana sabia mais da vida de Brad do que ela prpria pensou Claire. Mas por que se surpreendia? Evitara de todo jeito falar com Tm e Irene a respeito dele!
Mas doa ver outra pessoa falando da vida dele, de suas intenes para o futuro. Um futuro que no a inclua.
       Quando Silvana ia perguntar se Patrcia estava bem para ir embora sozinha ou se queria uma carona, um Jaguar parou junto  guia. Pat abafou um grito quando
o motorista saiu, voltou-se e a correr, mas ele segurou-a por um brao e quase a arrastou para o carro, sem cerimnia e sem dizer uma palavra.
       No queria estar no lugar de Pat! Pensou Claire, enquanto o rapaz batia a porta do lado do passageiro e acomodava-se ao volante.
       Claire j estava quase chegando em casa quando, num impulso, virou o automvel e foi para a praa onde havia visto Brad pela primeira vez.
       No havia muitas crianas l quela hora; ela foi at o lago e ficou olhando a pata e os patnhos, que nadaram em fila na direo dela:
       - Desculpe, mame pata, mas desta vez eu no trouxe po para vocs.
       - Mas eu trouxe - a voz profunda que soou atrs dela fez seu corao parar. - Pelo menos, trouxe o sanduche que me deram no avio.
       Ela no conseguiu se mexer, nem falar; o mximo que pde fazer foi olhar por cima do ombro, com medo de estar ouvindo vozes e de comear a ter vises.
       - Claire, fale comigo... Diga alguma coisa, por favor, nem que seja "v para o inferno!"...
       No deu mais para Claire manter o controle; violentos arrepios percorriam-lhe o corpo, sacudindo-o, e as lgrimas impediam-na de ver direito o rosto de Brad.
       - No faa assim, Claire - implorou ele. - Eu no queria perturb-la. Vim porque achei que devia fazer uma tentativa, que seria melhor do que telefonar e...
       A voz dele apagou-se e Brad puxou-a para si, abraando-a com tanta fora que ela podia sentir as batidas de seu corao. O cheiro dele e seu calor despertaram
a dolorosa esperana de que Brad a queria e seu corpo respondeu imediata e apaixonadamente.
       Ela desvenclhou-se, recuou e, mesmo aturdida pela surpresa e pelas emoes, teve vergonha: com certeza ele percebia os seios, que haviam se tornado duros
e os mamilos erectos, por baixo da fina blusa de seda. Era uma blusa de mangas compridas, abotoada na frente, com discreta abertura em V, enfim, que nada tinha de
provocante. No entanto, sentia-se uma escandalosa com os bicos dos seios delineados pelo tecido fino... - Santo Deus! Claire, ser que tem ideia do que est fazendo
comigo?
       Ela mal ouviu; olhava as mos grandes, morenas, que ele erguera ao fazer a pergunta e, ofegante, lembrou-se delas em seu corpo.
       - Claire,
       Ela cambaleou, enquanto uma vertigem escurecia-lhe a vista. Nada mais natural do que Brad passar um brao pela cintura dela, a fim de ampar-la. Nada mais
natural do que ela erguer a cabea, do que seus lbios entreabrirem-se em ansiosa busca de ar no momento em que a mo dele envolveu um seio e o acariciou de leve.
       Brad no podia acreditar que Claire estava em seus braos.
       No era possvel aquilo estar acontecendo! Pensou Claire quando ele inclinou a cabea e, afinal, suas bocas se uniram. No era possvel que ela estivesse
ali, no meio do parque,  vista de todos que passavam, sendo beijada por Brad com to apaixonada intensidade que com certeza no teria foras para permanecer de
p se ele a largasse. J que no era possvel tudo aquilo no passava de fantasia criada pela sua frtil imaginao. Por isso, podia abandonar-se, corresponder ao
beijo, como se abandonara em todas aquelas noites em que sonhara estar nua nos braos dele, o corpo forte, rijo, contra o dela, do mesmo jeito que sonhava agora...
       O agudo uivo de lobo emitido por um estudante que passava por eles trouxe-os  realidade. Seus corpos separaram-se, mas permaneceram unidos pelos olhares.
       - Voc est a p? - indagou ele.
       Estavam de mos dadas e ele a fitava como se, como se... Claire fez que no, pois no podia confiar na voz.
       -   melhor irmos para sua casa, Claire, porque do jeito que estamos vamos precisar de algum tempo at podermos conversar com clareza e fazer outra coisa
que no seja amor... D para imaginar como estou querendo voc? Di tanto, Claire, que se aquele arbusto fosse um pouco maior...
       Ela no devia fazer isso, pois era brincar com fogo, mas no pde deixar de dar uma olhadinha no tal arbusto. Era um rododentro que no oferecia privacidade
suficiente para fazer amor atrs dele.
       - Claire... - Brad quase implorava.
       - Tambm senti muito a sua falta - ela conseguiu dizer, por fim. - Eu te desejei tanto!
       - Nem metade do que eu te desejei, anjo! Se tivesse dado retorno ao meu telefonema, em vez de me deixar pensando que...
       - Retorno ao seu telefonema? - surpreendeu-se Claire.
       - Sim. Como voc no estava em casa, liguei para o Tim e pedi que lhe dissesse para voc me telefonar.
       - Ele disse s que voc havia ligado... Tim anda muito nervoso - imediatamente, ela tratou de defender o cunhado. - e, afinal, ele no sabia... Deve ter pensado
que voc queria apenas falar da mala.
       - , deve ter sido isso - assentiu Brad. - Voc no ligou, ento pensei que estivesse querendo me dizer que... que no sentia o que eu sentia... que no me
queria... Pensei que a tivesse perdido por no conter meu desejo, que voc tinha ficado com dio de mim... Achei que merecia o castigo de ser posto para fora da
sua vida...
       - Mas voc voltou! - ela no sabia o que pensar.
       Ser que Brad ia dizer que se haviam encontrado por acaso, que voltara apenas a negcio? De qualquer modo, o fato  que ele a desejava, que no deixara de
desej-la. Mas queria ouvi-lo dizer que voltara s por causa dela, mesmo que no fosse verdade.
       - , voltei... - um leve sorriso entreabriu os lbios de Brad. - Creio que talvez no sou o homem to moderno quanto pensava. Talvez meu orgulho masculino
no pde admitir que voc no me quisesse. Ou, quem sabe, senti tanto a sua falta que tive que vir!
       Brad fitou a sem tentar esconder a emoo. - H trs dias tio Joe me disse que o verdadeiro lar de um homem  onde seu corao est,  junto da mulher que
roubou o corao dele. Descobri que ele tem razo e vim assim que pude. Estava sentado aqui na praa h mais de uma hora, pensando como falar com voc e o que fazer
se voc me rejeitasse.
       - E se eu no o rejeitasse? - Claire mal se atrevia a respirar, com medo de quebrar o encanto. - Voc  a minha vida, Brad. Amei John quando precisava de
uma figura paterna, mas agora descobri que h outras formas de amor e que sinto por voc o que se sente por um homem... por um amante. - Hesitou, perturbada. - No
d para continuarmos aqui, Brad. Vamos pegar meu carro, estaremos em casa em cinco minutos e...
       - Nada disso! - protestou Brad. - De novo no, moa! Voc no vai me pegar desprevenido na cama outra vez. Tem que prometer que far de mim um homem honesto!
       Ele conteve a custo uma gargalhada diante do olhar confuso de Claire e prosseguiu:
       - Tem ideia do que foi sentir-me rejeitado depois que voc me usou sexualmente? Como poderia explicar isso  minha famlia? E se voc ficasse grvida?
       Claire estava de boca aberta, indignada por Brad interpretar o papel que seria o dela e com a maior cara-de-pau!
       - No que eu quisesse me livrar de assumir um filho - acrescentou ele, srio. - Sempre quis ter meus prprios filhos... A gente se acostuma com crianas na
casa e eu sinto falta principalmente dos menorezinhos...
       - Voc disse que queria velejar pelo mundo, sozinho! - lembrou-o Claire, severa.
       Entrara no jogo, to feliz que parecia flutuar.
       - Sim, mas isso foi antes...
       - Antes do qu? - pressionou ela.
       - Antes de voc me seduzir, me enganar, roubar meu corao, acabar com a minha independncia, me fazer querer passar todos os minutos da vida a seu lado...
- a voz dele se tornara rouca de emoo.
       - Pensei que no quisesse mais ir para a cama comigo... Ela tentava brincar para disfarar quanto estava emocionada tambm.
       Brad inclinou-se e beijou-a no pescoo provocando uma reao to intensa que Claire no conseguiu mais raciocinar. Tinha conscincia apenas da sensao que
recordava o gozo que Brad...
       - Eu no disse isso - ele falava e respirava junto ao ouvido dela, atormentando-a. - Quis dizer que no vou para a cama com voc se no prometer que se casa
comigo.
       - Casar? - Os olhos de Claire ficaram enormes. - Quer se casar comigo? Mas...
       - Sem "mas" - interrompeu Brad. - No vou admitir que os cinco filhos que vamos ter cresam pensando que voc nunca me amou o bastante para se casar comigo.
Alis, seria pssimo exemplo para eles. Sou um adepto do casamento, pergunte  minha famlia...
       - Cinco filhos?! Brad, eu tenho trinta e quatro anos!
       - E da? Hoje em dia uma mulher pode ter filhos aos quarenta anos, se quiser. Claro, estou sendo modesto ao dizer que sero cinco - brincou ele. - H gmeos
na minha famlia e dizem que depois dos trinta as mulheres correm mais risco de ter gmeos. Como prefiro os nmeros pares, que tal seis?
       - Seis... - murmurou Claire.
       Ela revirou os olhos, como se estivesse apavorada, mas ele pareceu no ver:
       - Combinado, seis! Mas s se prometer que se casa comigo... Ento, vamos! Ei! No, espere um pouco.
       Ele foi pegar a bolsa de viagem que deixara sob o banco quando a vira chegar. Abriu-a, retirou um gravador de bolso e aproximou-o dos lbios dela.
       - Prometa que se casar comigo, Claire. Quero uma prova para evitar que voc quebre a promessa. - Ligou o gravador e disse, com ar srio e emocionado: - Prometa,
por favor... No pode imaginar o que sofri esse tempo todo querendo ouvir, voc dizer que gosta de mim.
       - Posso, sim... - corrigiu-o Claire, suave. - Posso, porque sofri pela mesma coisa. Quando voc no me telefonou, pensei que era um sinal de que voc no
me queria... que tudo tinha sido... que eu era apenas...
       Um beijo possessivo, ardente, impediu-a de continuar. Quando afinal ele a soltou, Claire, eufrica, quis brincar tambm:
       - Sei porque est fazendo isto. Quer me enlouquecer de desejo para me obrigar a concordar com tudo, desde que voc v para cama comigo.
       - Positivo! Deu certo?
       O olhar de Brad expressava um erotismo to intenso que o desejo alastrou-se como chamas pelo corpo de Claire.
       - Hum... Acho que sim... - admitiu ela.
       - Ento, vai se casar comigo? - insistiu ele.
       - Sim, vou me casar com voc, Brad.
       Horas depois, ainda enrodilhada junto a ele, na cama, deliciosamente saciada pelo amor que tinham feito, Claire perguntava-se como pudera duvidar que Brad
a amava.
       - No vai, mesmo, se arrepender de ir morar na Amrica? - indagou ele, preguiosamente.
       -  No. Meu lugar  perto de voc - ela acariciou-lhe o queixo. - Vou ter saudade de Sally, dos amigos... Mas Sally tem o marido, podemos vir para c de vez
em quando e Felicity vai conosco,  claro.
       -  claro - assentiu Brad, passando a mo na gatinha, que subira para ver o que eles estavam fazendo.
       - Ser que a empresa pode me dar um jatinho? - Os olhos de Brad riam. - Afinal, com todos os nossos filhos acho que...
       - Brad, nem sabemos se eu posso ter filhos...
       - Quer apostar? - desafiou ele, puxando-a para junto de si e falando-lhe ao ouvido. - Tenho certeza que ele... ou ela - acariciou o ventre de Claire -, que
o nosso primeiro filho j est aqui...
       Claire riu, acusando-o de querer obrig-la a casar-se, mas no fundo achava que talvez fosse verdade. Um secreto instinto feminino lhe dizia que se abrira
completamente para Brad na primeira vez que tinham feito amor, que seu corpo e seu ventre o haviam recebido. Uma certeza talvez ridcula, sem sentido, no entanto...
       - Vamos nos casar aqui, antes de irmos para a Amrica. Se esperarmos muito nosso filho vai aparecer e...
       - No tem medo que seus irmos no gostem de mim? - preocupou-se Claire.
       - Nem um pouco! - riu Brad. - Tenho certeza de que eles vo ador-la, agarrar-se a voc e por isso quero ficar aqui, s ns dois, por algum tempo. O que sinto
por voc  precioso para mim e ainda muito novo...
       Brad entrelaou os dedos nos dela e beijou-lhe a mo.
       - Para mim tambm - sussurrou ela, os lbios nos dele.
       Casaram-se um ms depois, em uma pequena igreja, com uma cerimnia simples, bem a tempo para evitar falatrio demais quando o filho deles nascesse "de oito
meses".
       A gravidez dela fora confirmada trs dias antes do casamento e Brad vivia dizendo, eufrico:
       - Eu no disse?
       No fim da semana voariam para a Amrica, parariam em Nova York e depois iriam para a casa de Brad. Claire esperava o encontro com a famlia dele entre apreensiva
e ansiosa. Brad lhes telefonara contando que se havia casado e todos, inclusive os tios, tinham insistido em falar com Claire para lhe dar calorosas boas-vindas
 famlia.
       Haviam acordado tarde nessa manh, depois de um jantar com Sally e Chris, que se prolongara madrugada adentro. Era quase meio-dia e conversavam na cama quando
a campainha tocou.
       - Fique a, que eu atendo - Brad levantou-se. Enquanto ele vestia o roupo, Claire observava, sorrindo.
       Seu marido tinha o corpo mais lindo, mais sexy do inundo: arrepiava-se toda s de olh-lo!
       Poucos minutos depois, Brad entregou-lhe um bonito arranjo de flores, acompanhado por um carto.
       - Para voc... - Acrescentou, meio enciumado: -  de algum que conheo?
       - No sei - respondeu ela, franzindo a testa. -  buque de noiva. Parece...
       Sua fisionomia se descontraiu e ela soltou uma gostosa gargalhada ao perceber por que aquele arranjo lhe parecia conhecido: era uma rplica do buque de Sally,
apanhado por ela Pat e Silvana.
       Enquanto contava a Brad por que ria tanto, abriu o pequeno envelope e leu o carto;
       Uma j caiu, as outras duas esto caindo! Amor, Sally.
